segunda-feira, 19 de setembro de 2011

"Um Sonho de Amor", 2009: Bella storia e belle foto!



"Um Sonho de Amor" (Io Sono L'Amore) 2009 [Itália/Rússia/UK] Direção: Luca Guadagnino Roteiro: Luca Guadagnino / Barbara Alberti / Ivan Cotroneo / Walter Fasano Elenco: Tilda Swinton / Flavio Parenti / Edoardo Gabbriellini / Alba Rohrwacher / Pippo Delbono / Diane Fleri / Maria Paiato / Gabriele Ferzetti

Duas reclamações são obrigatórias antes de se avaliar este filme: o nome péssimo e absurdamente genérico que deram aqui no Brasil, podendo ser tranquilamente ser chamado de "Eu Sou o Amor" - o que faria muito mais sentido e paladar ao filme - ; e a demora para chegar nas telas, pelo menos de Curitiba - dois longos anos!!!

Reclamações feitas, vamos ao filme. Para quem sempre está com saudades dos bons filmes italianos, este é de deixar o espectador satisfeito. Sim, daqueles que provocam, instigam, envolvem, e ainda possui uma paisagem de se perder o fôlego. Aos poucos, sem nenhum salto, no tempo exato, vai se construindo a história principal, os personagens vão sendo compostos com complexidade e profundidade, e as paisagens e a fotografia vão se fundindo com o drama de cada um em cena e a nossa paixão pela Bella Itália vai às alturas.

O filme apresenta uma família tradicional, de classe alta de Milão, em que à princípio não se tem nenhum outro drama senão a preocupação em se fazer um jantar de gala para seu anfitrião, o patriarca Edoardo Recchia Senior (Ferzetti), encaixando uma convidada de última hora de seu neto, Edoardo (Parenti). Em meio ao jantar, que está sendo um sucesso, um novo drama: Edoardo Senior anuncia sua aposentadoria, surpreendendo a todos ao anunciar como sucessor não apenas seu filho, o monótono e ambicioso Tancredi (Delbono) mas também a seu neto Edoardo. Logo, outro drama surge: a neta, Delfina (Codecasa), seguindo a tradição da família de se presentear com um quadro - preferencialmente de própria autoria - presenteia o nono com uma fotografia, coisa que visivelmente constrange o patriarca e que mesmo tentando disfarçar provoca mal-estar em toda a família. Em meio a esse turbilhão de sentimentos, outros irão surgir com maior força e maior intensidade fazendo com que os primeiros sejam transformados em mera futilidade.

Antonio (Gabriellinni), amissíssimo de Edoardo, que o vencera em uma corrida e que já havia se tornado um constrangedor tema daquela janta, aparece na mansão Recchia para demonstrar sua amizade por Edoardo. Aos poucos, vamos descobrir uma amizade de profunda admiração e irmandade entre os dois. Tal profunda admiração se extende também para a alma do filme: Emma (Swinton), que se encanta com o rapaz e com seu talento culinário. Deste ponto em diante, temos em cena a tragédia do amor, como em uma ópera italianíssima.

O filme vai sendo construído com inteligência e vai sempre deixando marcas em quem assiste. É impossível não suspirar com as belas imagens e com a atuação bastante convincente de Swinton (que a cada dia mais me surpreende com sua boa forma e talento cênico). Somos tranportados para as belas imagens de Milão e San Remo, ficamos aflitos com a frieza de Londres, sentimos o cheiro da rica culinária de Antônio, nos apaixonamos por todos os personagens. O filme começa em pleno inverno, com calçadas branquinhas de neve, e vai esquentando ao longo da trama. Tudo o que foi construído no começo passa a ser descontruído com aquela beleza do amor/tragédia italiana. Emma vai se descobrindo na medida em que sua história original é resgatada, ao mesmo tempo, sua vida vai passar por processos nada fáceis. Somente quem é puramente amor poderia tomar as decisões tomadas. E, de quebra, rapidamente várias surpresas no final não deixam o filme com pontas soltas.

Talvez minha única queixa é a existência de um personagem que passou, inclusive, sem falas. O irmão de Edoardo. Ele está ao longo de todo o filme, mas nem no cartaz aparece. No restante, é um filme lindo e que vale a pena de se comprar assim que achar nas prateleiras. Um filme italiano daquele que estávamos com saudade!

Ósculos e amplexos!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

"Melancolia", 2011: poético e fascinante fim do mundo.



Melancolia (Melancholia) Dinamarca / Suécia / França / Alemanha , 2011 - 136 minutos Drama / Ficção científica Direção: Lars Von Trier Roteiro: Lars Von Trier Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Alexander Skarsgaard, John Hurt, Stellan Skarsgaard, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling



Apesar de um pouco zonzo com as tomadas de câmera na mão e muita intervenção ao som de Tristão e Izolda, de Wagner, confesso que saí do cinema irritado com o filme. Mas, poucos minutos após sair, caminhando pela cidade, pude compreender a beleza de um dos melhores e mais polêmicos diretores da atualidade. Lars Von Trier, ao mesmo tempo que é infeliz ao fazer declarações nas coletivas envolvendo Hitler e judeus, é por demais feliz em suas obras. E, para quem não estiver com espírito preparado para assistir mais uma obra do depressivo diretor certamente terá uma desagradável surpresa.



O filme, de uma maneira geral, é uma pintura de uma catástrofe anunciada. Igualmente a uma ópera, porém com uma fotografia exuberantemente linda, teremos duas longas versões melancólicas de uma catástrofe inevitável. Após ver uma série de imagens onde mostra uma noiva angustiada querendo fugir e o planeta Terra sendo engolido por outro consideravelmente maior, o filme começa de fato e seguira em duas partes. Na primeira, a história acontece ao redor de Justine (Dunst). De maneira muito bonitinha e alegre, temos uma limosine incapaz de levar o casal apaixonado ao seu casamento por não conseguir fazer uma curva. Do momento em que chegam ao local da festa de casamento em diante, o que temos é um festival de tristezas e muita, mas muita ironia de Lars Von Trier. (Infelizmente, não poso adiantar muita coisa - evitando Spoilers). A segunda parte, por sua vez, passa-se ao redor da angústia da outra irmã, Claire (Gainsbourg). Ela tem conhecimento da aproximação do planeta Melancolia e teme pelo pior.



Desde o começo sabemos o que vai acontecer. Porém, a beleza de como cada coisa é apresentada é de se encher os olhos. Seja pelo nu azulado de Justine, seja pela convincente interpretação de cada um dos atores e atrizes. Cada qual com uma beleza ímpar. Tanta coisa bela caminha junto com o abismo depressivo de Von Trier. Para ele, o fim do mundo é assim, sem esperança, sem grandes acontecimentos previstos ou revelados, sem nem menos pena da humanidade. Para ele "a humanidade não fará falta".



Não se trata de um filme fácil de se assistir, mas consideravelmente possível se comparado à outras obras de Lars Von Trier. Um poético e fascinante fim do mundo, do nosso universo particular e de nosso universo intangível.


Ósculos e amplexos!

"Professora Sem Classe", 2011: não faz rir, além de ser patético.



"Professora Sem Classe" (Bad Teacher) EUA - 92 min. Comédia Direção: Jake Kasdan Roteiro: Gene Stupnitsky, Lee Eisenberg Elenco: Cameron Diaz, Jason Segel, Justin Timberlake, Lucy Punch, Phyllis Smith, John Michael Higgins, Kaitlyn Dever, Matthew J. Evans



Sim, há algumas cenas de "Professora Sem Classe" que são de uma estética interessantíssima. Mas dependem de puros fetiches do espectador. O filme tem problema de tempo, as piadas são fracas, o enredo muito caricato, e o pior, os atores e atrizes não convencem.



"Professora Sem Classe" igualmente ao péssimo trocadilho que seu título recebeu no Brasil é a tentativa de se fazer uma comédia insana com elementos comuns no cotidiano escolar. Conta a história de Elizabeth (Diaz), professora por profissão e mau-caráter por estilo. Detesta o emprego que possui, considera seus colegas de trabalho um bando de imbecis e não dá a mínima para a educação de seus alunos. Ser professora é um embuste para aparentar ser boa moça para os ricaços que lhe poderão promover o sonho dourado. Porém, culpando seus seios medianos por ter sido desmascarada em seu último noivado, faz de tudo para juntar dez mil dólares e assim poder comprar suas próteses (para agarrar outro ricaço). Em meio a sua tediosa vida regada à bebidas, drogas e muita ressaca na hora da aula, conhece o bonitão e herdeiro de uma famosa marca de relógios - e que ninguém explicar por qual motivo ele é também professor - Scott (Timberlake). Daí por diante, dá-lhe cenas e mais cenas de situações sensuais com a lourona e pouquíssimos argumentos inteligentes.



O filme tem um desafio duplo: ser sensualmente incorreto ao mesmo tempo formatado para um público maior de 14 anos de idade. Não daria outro resultado senão um sucesso de bilheteria, principalmente para o público adolescente, mas desagradável para públicos um pouco mais exigentes. Uma ou outra piada inteligente no meio de um montão de piadas grosseiras não é o maior problema. Terrível é suportar uma série de grosseirias expostas de maneira frágil, com personagens pouco convincentes e que vão se tornando cada vez mais caricatos ao longo do filme.



Seus noventa e dois minutos de duração se arrastam, fazem parecer três horas. Há três viradas muito mal contadas ao longo da história. E a redenção da anti-heroína realmente é patética.



Por fetiche, por pouquíssimo humor inteligente, o filme não compensa. Sabe-se lá o motivo de ter obtido tamanho sucesso em bilheteria.



Ósculos e amplexos!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

"Os Smurfs", 2011: Para crianças de hoje, lembre-se disso!


"Os Smurfs" (The Smurfs Peyo) [EUA] 2011 - 102 min. Animação / Infantil Direção: Raja Gosnell Roteiro: J. David Stem, David N. Weiss, Jay Scherick, David Ronn Elenco: Neil Patrick Harris, Jayma Mays, Sofía Vergara, Hank Azaria, Jonathan Winters, Katy Perry, Anton Yelchin, Frank Welker, Fred Armisen, Alan Cumming, George Lopez



O filme é para crianças de hoje, portanto não é para crianças da década de 1980. Ainda que por diversas vezes o filme conversa com o público infantil de décadas passadas (ele faz algumas afirmações para aqueles que já cresceram como: a musiquinha xarope, a mania de usar a palavra "smurf" para tudo, etc), ele é fofo o bastante para cativar as crianças que nasceram após o ano 2000. Portanto, deve ser visto como tal. Para os mais crescidinhos, algumas informações importantes são finalmente explicadas - como por exemplo, como pode ter 99 homens e apenas uma mulher na vila dos Smurfs - e outras humoristicamente ignoradas.

A história é simples, na vila dos Smurfs, Papai Smurf tem uma visão preocupante sobre o futuro. Vê o Smurf Desastrado sendo o responsável pela captura dos demais smurfes pelo bruxo Gargamel e seu gato Cruel. E a confusão se confirma: sem querer, Desastrado leva Gargamel diretamente para a vila dos Smurfs. Na fuga, alguns smurfes descobrem um vórtice que os levam para Nova Iorque e lá conhecem o estranho mundo dos seres humanos enquanto tentam voltar para casa. As criaturinhas, em um mundo totalmente desconhecido, conhecem Patrick (Harris) e Grace( Mays - que tem um meigo olhar que parece ter saído da um gibi), um casal que espera seu primeiro filho. Sua chefa é a linda, latina e terrível Odile, dona de um império dos cosméticos e que espera uma campanha publicitária impossível circulando pela cidade.

"Casa grande faz com que o casal fique mais afastado", diz a sábia Smurfete. Sim, alguns valores importantes como valorizar mais a família que os bens materiais, valorizar a paternidade mais do que uma promoção no emprego, apoiar a esposa e estar sempre pronto para auxiliá-la, estão o tempo todo contidos na história e acabam sendo o grande drama de fundo dos personagens nova-iorquinos. Já para os Smurfs, é a volta para casa. Há tempos em que a beleza de uma boa história, centrada em valores adequados para as crianças, não era exibida. Em meio a tantos eletrizantes desenhos, com erotizações, com valores invertidos e tantas outras coisas facilmente questionáveis de serem exibidas para o público infantil, "Smurfs" acaba sendo um alívio adequado para um bom programa em família.

Realmente, o filme carece de um enredo mais profundo e muito dos personagens acabam tendo situalções em que simplesmente desaparecem. Ao mesmo tempo, temos o mais divertido gato da história do cinema (sim, ele bateu o gato de botas de Shrek e Garfield). Gargamel, enquanto bruxo atrapalhado, é o responsável por quase toda a ação do filme. E a homenagem ao criador dos Smurfs, Peyo, bem como a referência feita ao fenômeno que foi o desenho são elementos bem homenageados no filme. Inclusive as palavras mágicas para abrir o portal não poderiam ser em outra língua senão a francofonia do belga Peyo.

O que me incomodou - sempre me incomoda - foi que a versão 3D só serviu para uma coisa: deixar o ingresso mais caro. Não contribui em absolutamente nada.

Enfim, um filminho bom e agradável para assistir com a família.

Smurfs e smurfs!


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

"Capitão América: o primeiro vingador", 2011: história bem contada.


"Capitão América: o primeiro vingador" [Captain America - The First Avengers ] EUA , 2011 - 124 min. Aventura Direção: Joe Johnston Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely Elenco: Chris Evans, Hugo Weaving, Hayley Atwell, Sebastian Stan, Dominic Cooper, Tommy Lee Jones, Stanley Tucci, Richard Armitage, Toby Jones, Neal McDonough, Derek Luke, Kenneth Choi, JJ Feild, Bruno Ricci, Lex Shrapnel, Michael Brandon, Martin Sherman, Natalie Dorme.


Já cansado de assistir grandes projetos das histórias em quadrinhos se tornarem uma imensa chatice no cinema, fui assistir sem nenhuma expectativa ao filme da HQ que nunca me despertou nenhum interesse. Capitão América, para mim, sempre foi muito chato. Tanto na sua época de ufanismo estadunidense quanto em sua fase de depressão - quando descobre que é possível existir corruptos no primeiro mundo. Ao término do filme, fui para casa com um sorriso nos lábios. O filme, que eu não dava nada, é bom!

Na busca por recriar seu universo também nos cinemas, a Marvel fez vários filmes dos quais apresentavam para o público cineasta seus principais personagens: Homem-de-Ferro, Hulk, Thor, Quarteto Fantástico e X-Men. Os três primeiros foram apresentados com algumas interferências e referências que tão somente os fãs de HQ compreendiam, mas que carregavam o filme de informações que pouco ou em nada contribuía. Com isso, os filmes custavam a agradar o público mais cinéfilo em troca de um perdão ao público mais, com ainda mais perdão do neologismo a ser usado, "agaquéfilo". Surpreendentemente, o Capitão América consegue escapar disso e ter uma história centralizada em seu personagem. E o mais genial, não se abandona a referência ao projeto maior - e que agora eu temo profundamente seu resultado - de se fazer o primeiro encontro (crossover) de personagens no cinema: Os Vingadores.

Para centrar a história no personagem sem perder de vista o crossover futuro, Markus e McFeely usaram de uma ferramenta inteligente: o tempo. Sim, o filme começa em tempos atuais com a descoberta de um avião do tempo da Segunda Guerra, enorme, enterrado no gelo groelândio. Ao explorar internamente a aeronave, descobrem o super-heroi da Segunda Guerra congelado: o Capitão América. Neste momento, um imenso flashback dá início, bem como o filme propriamente dito começa. Steve Rogers (Evans), raquítico e com um histórico familiar de algumas doenças, sonha em entrar para as Forças Armadas e lutar na Guerra. Mas, seu porte físico e histórico de saúde é um entrave tão significativo que lhe foi negado cinco vezes a entrada no exército. Em mais uma tentativa, um misterioso cientista alemão mas que serve ao exército americano identifica em Rogers mais do que músculos: bondade, inteligência e força de vontade. E assim, o magricelo entra para as forças armadas dos Estados Unidos com o propósito de ser cobaia de uma grande experiência científica. Depois de uma série de testes, Rogers é aprovado para ser o primeiro a receber um soro que o transformará em um super-soldado. A experiência dá certo, mas um incidente faz com que o inventor do soro morra e com ele a fórmula do supersoldado. Rogers é espécime única e se transformará em Capitão América.

A história vai desenvolvendo o personagem de maneira elegante e convincente. Antes mesmo do magricelo Rogers se tornar no avantajado Capitão América, já se torce pelo mocinho. É uma história de militares durante a guerra, portanto poucos sorrisos são vistos na tela. Dessa maneira, os pouquíssimos momentos de afeto são valorizados pela história. Aliás, destaque para Peggy Carter (Atwell), oficial de forte sotaque britânico e que além de durona, é linda! Ela irá fazer o par romântico com o heroi e protagonizar alguns dos momentos mais dramaticos da história enquanto uma personagem marcante e importante. Isso citando apenas o heroi e sua musa, mas há de se dizer que o elenco todo estava muito bem preparado para fazer o filme. Destaque para Tommy Lee Jones, que faz o coronel Chester, linha dura que treina o supersoldado, responsável pelos alívios cômicos.

Nem tudo são flores, apesar da excelente atuação de Weaving, o vilão Caveira Vermelha - que de tão mau rivaliza com o próprio Hitler - não tem um personagem tão bem construído ao longo do filme. É compreensível que o Caveira Vermelha e o Capitão América possuem as mesmas forças e qualidades, mas na hora do tão aguardado confronto a coisa toda foi prorrogada para um próximo filme. É nesse momento que a Marvel nos faz lembrar de uma de suas mais irritantes estratégias comerciais: a de ser sempre no próximo HQ - ou filme - a explicação do anterior.

O filme é bom, harmonioso, bem contado. Até mesmo para quem nunca ouviu falar no Capitão América (e não são poucos) olharão para o heroi com um pouco mais de carinho - mesmo em épocas em que os Estados Unidos continua sendo o maior benfeitor e o maior malfeitor do mundo.

Ósculos e amplexos!


terça-feira, 12 de julho de 2011

"Cilada.com", 2011: infelizmente, é fraco.


"Cilada.Com" [Brasil], 2011 - 95 min. Comédia Direção: José Alvarenga Jr. Roteiro: Bruno Mazzeo, Rosana Ferrão Elenco: Bruno Mazzeo, Fernanda Paes Leme, Augusto Madeira, Carol Castro, Fabiula Nascimento, Fúlvio Stefanini, Sérgio Loroza, Thelmo Fernandes, Marcos Caruso, Luis Miranda, Débora Lamm, Alexandre Nero, Karla Karenina, Dani Calabresa, Milhem Cortaz, Rita Elmôr, Fernando Caruso

Nada mal, porém nada bem. O filme que se propunha a ser comédia de esquetes, escorrega feio ao buscar um jeitão "comédia-romântica ianque". E o resultado é uma ótima história em um filme fraco, infelizmente. Infelizmente, pois, o filme é composto por uma constelação interessantíssima de atores e atrizes de elevadíssimo talento. Mas, a falta de ritmo incomoda, e algumas gags são buscadas de maneira lamentáveis - que lembra, porém completamente fora do esquadro o "Se Beber Não Case".

Em meio ao casamento de uma prima, Fernanda (Leme) vê seu namorado, Bruno (Mazzeo) com outra. Ou melhor, todos veem a cena, pois eles estavam atrás do biombo utilizado para uma projeção e que caíra justamente quando a moça se apoiou para buscar, vamos dizer assim, uma posição melhor. Para se vingar, Fernanda posta na internet uma pífia performance sexual de menos de doze segundos entre Bruno e ela. O vídeo se transforma em um verdadeiro webhit, tornando a necessidade de Bruno "limpar a barra" uma verdadeira odisseia.

Aos poucos, vamos vendo um humor que não colabora em nada com a história. Além disso, demonstra algumas apelações que considerei desnecessárias (como por exemplo, e que está no trailer, a eterna atitude discriminatória de generalizar o pênis negro). Mas, a situação vai piorando. Preconceito de classe, preconceito contra transsexuais, preconceito para com tudo e todas. Enfim, somente a mulher ninfomaníaca e que gosta de tapas no rosto é a mulher da vida do fracassado Bruno.

Bruno como homem é péssimo, como profissional é fraco, como namorado é um sacana, e como ser humano é uma miséria. Tais elementos em momento algum do filme tem redenção. E por uma risada gratuita, realmente o filme é fraco demais e chega a insultar. O adúltero tem sua redenção facilmente estampada ao longo de todo o filme. E a mensagem de que ficar com alguém para não ficar sozinho enquanto sendo amor é de amargar todo o melado que se propunha na parte romântica do filme.

Algumas situações são hilárias. Porém, quase todas estão nos trailers.

Ósculos e amplexos!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

"Os Pinguins do Papai", 2011: que vontade de gritar me deu!

"Os Pinguins do Papai"(Mr. Popper's Penguins) [EUA] , 2011 - 94 min. Comédia Direção: Mark Waters Roteiro: Jared Stern, John Morris, Sean Anders Elenco: Jim Carrey, Carla Gugino, Angela Lansbury, Ophelia Lovibond, Madeline Carroll, Clark Gregg, Philip Baker Hall, Dominic Chianese

"Ai que filme ruim!" Foi a minha vontade de gritar dentro do cinema. É sério, virava-me e me revirava na poltona do cinema aguardando o fim da imensa tortura que é o filme. Nem mesmo a sempre bela visão de Carla Gugino (sim, sou apaixonado por todo aquele charme que ela tem) consegue fazer o filme menos insuportável. O retorno do envelhecido Jim Carrey às comédias que o lançou no cinema acaba sendo decadente, cansativo, e absurdamente sem graça.

Por causa de um pai ausente (vamos combinar que o estadunidense deve ter muito problema com isso), Poppers (Carrey) é um homem de negócios sem muitos valores. Por isso, é divorciado e um fracasso como pai. Por outro lado, é um gênio quando se trata de transaçõs imobiliárias. Mas, sua vida dá uma grande guinada. Seu pai falece, deixando de herança um pinguim. Justo quando o maior desafio de sua carreira foi decretada por seus chefes: a de comprar a impossível e única localização privada do Central Park de Nova Iorque.

Bom, segue o de sempre. O blá-blá-blá água com açúcar de sempre. Popper vai aprender a ser pai com os pinguins. A rede de relacionamentos dele vai sofrer uma alteração brusca na medida em que vai aprendendo a lição. E tome cocô de pinguim para provocar risos, pois as caretas de Carrey não são mais tão boas.

Não agrada, tem pouca graça, e mesmo na hora em que uma perseguiçãozinha muito da fraquinha acontece a coisa não empolga. Além disso, os sempre graciosos pinguins são apenas graciosos. Dão a impressão de que o filme está fora de prazo, talvez sendo melhor aproveitado na televisão em época de natal. Mas no cinema é uma grande chatice.

Em tempo: o filme tem uma brincadeira com a língua do Pê que realmente não se encaixou em nada - mais evidenciado na secretária de Popper. Se era para rir, acho que não deu certo, pois irrita.

Ósculos e amplexos!

"Transformers 3", 2011: para quem quer porrada!

"Transformers 4: O Lado Escuro da Lua" (Transformers: dark of the moon) [EUA] , 2011 - 157 min. Ação / Ficção científica Direção: Michael Bay Roteiro: Ehren Kruger Elenco: Shia LaBeouf, John Turturro, Josh Duhamel, Tyrese Gibson, Rosie Huntington-Whiteley, Patrick Dempsey, Kevin Dunn, John Malkovich, Frances McDormand, Ken Jeong, Leonard Nimoy, Peter Cullen

Ei! Cadê a maravilhosa da Megan Fox?! Ela atuava mal pra caramba, mas a nunca-vi-antes -na-vida Rosie-Huntington-Whiteley é uma falta de educação! [Todo mundo sabe que a exótica e linda Fox fez um infeliz comentário comparando o judeu diretor Michael Bay à Hitler e, por isso, foi cortada do filme].

Bom, atendo-se ao filme: oras bolas, quem vai ao cinema assistir Tranformers vai para ver muita, mas muita pancadaria entre os robôs. E neste quesito, o filme é de perder o fôlego. A relação entre os robôs e a Terra é mais antiga do que os outros dois filmes nos contaram. A guerra deles derribou na lua uma nave abatida onde a esperança dos Autobots estava dentro. (E que não vou contar para não estragar as pouquíssimas surpresas do filme). Mas, a descoberta desta nave pelos humanos aconteceu ainda na época da corrida militar entre EUA e URSS, e muito mais do que os próprios robôs sabiam estavam escondidos nos arquivos presidenciais.

Paralelamente, os humanos mais próximos dos robôs são todos uns, como a tradução gosta de chamar os out-siders, fracassados. Sam Witwicky (LaBeouf), heroi de guerra condecorado, formado em uma das mais importantes universidades dos EUA, é um grande desempregado bancado pela namorada (H-Whiteley). O mesmo acontece com outros mais chegados dos robôs, que nem sequer se aproximam da arrogância dos militares e seus interesses bélicos.

O filme acaba sendo um dos maiores disperdício de atores que já se viu, inclusive o sempre eficiente John Malkovich. Os personagens são irritantemente vazios, quando não alternam essa irritação por falas cheias de arrogância que faz com que o espectador sinta verdadeiras vontades de sair do cinema tamanho os insultos. Mas tudo isso faz parte do cenário caótico que virá. (Lembrando que Huntington-Whiteley é muito, mas muito ruim, apesar de belíssima!).

Indo direto ao assunto, o filme não decepciona no fim das contas. Afinal, quem quer saber de história de amor em um filme que promete pancadaria? E neste quesito, realmente o filme lembra parte da minha infância ao explicar por que meus brinquedos viviam aos pedaços. São mais de quarenta minutos de pancadaria convincente e sem tréguas - com direito à baixas em todos os lados, inclusive a pulverização de humanos!!! Chicago vai pras cucuias, com quedas e explosões convincentes. E os robôs... ah! os robôs! Estão maravilhosamente sanguinários (com direito à sangue jorrando dos robôs!).

O filme é para quem quer ver porrada, porrada, e destruição. Esqueça tudo o mais, pois não presta. Somente os encontrões e explosões fazem o filme interessante.

Ósculos e amplexos!


"Carros 2", 2011: sem o charme e a nostalgia do primeiro.

"Carros 2"[Cars 2] (EUA) , 2011 - 113 min. Animação / Infantil Direção: Brad Lewis Roteiro: Ben Queen Elenco: Owen Wilson, Larry the Cable Guy, Michael Caine, Emily Mortimer, Jason Issacs, Thomas Kretschmann

A beleza do primeiro filme "Carros", 2001 não foi muito bem compreendido pela crítica brasileira por considera-lo "americano" demais. E, sinceramente, foi justamente o que mais gostei no primeiro filme, pois mostra uma faceta dos Estados Unidos do qual não conhecemos (a Rota 66, que cortaa os Estados Unidos de costa-à-costa, mas que foi muito bem explicado). Mas, concordo com a crítica quando se diz que foi o mais fraco de uma safra de bons filmes da Pixar.

A continuação perde o ar nostálgico da Rota 66 imortalizada por Janis Joplin (e também pelo já, ainda bem, extinta propaganda de cigarros). Desta vez, a história busca ser um pouco mais mundializada. É justamente neste momento em que Carros 2 perde completamente seu charme e se torna um filme chato para adultos e sem muita graça para crianças.

Relâmpago McQueen é o mesmo carro de corrida do primeiro filme e que após quatro temporadas campeão, volta para Radiator Springs - local onde aprendeu a beleza da humildade e a alegria de se ter uma família e namorada. Em férias, não quer saber de corrida até que seu grande e "caipira" melhor amigo Mate resolve defender sua honra. Uma corrida mundial (mas em apenas três países) para promover um combustível ecológico fez com que o arrogante carro de corrida Francesco provocasse Relâmpago, mas vigorosamente defendido por Mate. E assim, toda a família de Radiator embarca para ser a equipe de McQueen no Grand Prix idealizado por Miles Eixonarroda - o milionário que descobriu o combustível. Paralelamente, uma conspiração internacional ameaça o combustível verde e terá o detetive James Bond, ou melhor, Finn McMissíl na cola deles para desvendar o mistério que ronda sobre as explosões dos carros de corrida.

Em comparação, já que se trata de uma continuação, o filme tem desta vez como protagonista o desajeitado Mate. Ele é o grande responsável pelos momentos de qualidade do filme, bem como suas gags. Mas, a corrida, coisa principal do filme, ficou em um plano tão longínquo que fez com que se perdesse o charme do primeiro filme. Além disso, muitas pontas soltas acabam tornando o filme quando não sem maior conteúdo, previsível demais.

O filme não é ruim, apenas não tem o charme e a nostalgia do primeiro.

Ósculos e amplexos!


sexta-feira, 24 de junho de 2011

"Meia-Noite em Paris", 2011: Woody Allen se revigorou com uma declação de amor.



"Meia-Noite em Paris" (Midnight in Paris) [França/EUA] , 2011 - 100 min. Comédia/Romance Direção: Woody Allen Roteiro: Woody Allen Elenco: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Carla Bruni-Sarkozy, Michael Sheen, Nina Arianda, Alison Pill, Tom Hiddleston, Kathy Bates, Corey Stoll, Kurt Fuller, Mimi Kennedy


Desde 2005 que Woody Allen se reinventa. Abandonou aquela insistente busca por um lado felliniano que não possui e resolveu divagar pelo mundo seu jeito esquizofrênico em verdadeiras declarações de amor pelas cidades onde seus novos filmes são ambientados. Um Woody Allen com sotaque e um olhar inteligente, mesmo que seu alter-ego seja sempre seu personagem principal. Em "Meia-Noite em Paris", de maneira leve, declara-se o amor pela Cidade Luz da seguinte forma: - "Cara, como consegue essa cidade ser tão mágica? Tenho que falar com a Câmara do Comércio sobre algumas coisinhas!". E tal declaração de amor lhe rendeu o filme que já é sua melhor produção desde "Hanna e suas irmãs", 1985.

O alter-ego de Allen é Gil (Wilson), renomado e cansado roteirista de Hollywood que deseja publicar um livro realmente bom. Ele está prestes a se casar com a linda, intragável e completamente fútil Inez (McAdams) e vão para Paris a fim de objetivos bastante diferentes. Mas Gil acaba tendo um romance paralelo: apaixona-se pela cidade e misteriosamente é conduzido para uma Paris dos anos 1920, onde se encontra com seus ídolos e referências como Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Salvador Dalí e tantos outros (com direito a uma sequência de gags com nada menos que Salvador Dalí).

De uma maneira bastante suave, Gil vai ocupando todos os espaços do filme. Não se trata de uma comédia, mas de um encontro. Ainda que Allen dê momentos de política, filosofia e sua eterna maneira particular de ridicularizar a psicologia, seu alvo principal é a pseudo-intelectualidade. Aliás, dá uma surra no intelectual de Sourbonne quando viaja pelo tempo e comprova que a arte deve ser vivida e não somente ostentada. Quem não vive a arte, apenas acumula informação e se torna pedante. E o personagem intelectualoide é Paul (Sheen), que dá encima descaradamente da noiva de Gil enquanto toma atitudes irritantes como a de discutir com a guia vivida pela Primeira-Dama francesa Carla Bruni-Sarkozy. Também sustenta uma tese que será o grande drama do filme: por que uma geração sempre venera a geração anterior?

O filme é lindo, leve, romântico, mas exige um público iniciado - mas não muito - em letras e artes. Se não conhecer Buñuel, se não assistir seu "O Anjo Exterminador", 1962, não vai entender a piada maravilhosa que aparece quando Gil dá uma ideia de filme ao próprio diretor espanhol. Se não entender um pouco das literaturas francesa e americana, certamente não vai entender a brincadeira entre Fitzgerald e Gil sobre Mark Twain. Mas não se preocupe, o filme é bom e tão somente os pseudo-intelectuais - tão ironizados no filme - irão se preocupar em dissecar cada uma dessas referências.

Excelente, é um Woody Allen revigorado.

Ósculos e amplexos!

terça-feira, 14 de junho de 2011

"Potiche", 2010: comédia e crítica atual, feminina, e feminista.


"Potiche: esposa trofeu" (Potiche) [França], 2010 Direção: François Ozon Elenco: Catherine Deneuve, Gérard Depardieu, Fabrice Luchini, Karin Viard. 103 min Comédia

Apenas pelo fato do diretor Ozon estar novamente fazendo comédia já seria uma ótima notícia. Mas a boa notícia não para por aí, Catherine Deneuve e Gérard Dépardieu fazem novamente uma dupla romântica no cinema – bem mais envelhecidos que em "O Último Metrô", 1980, mas com o mesmo charme.

"Potiche", em francês, significa vaso, mas que é utilizado figurativamente para aquela esposa que vive para seu marido, como um enfeite de prateleira. A grande "Potiche" aqui é Suzanne Pujol (Deneuve), filha de um grande fabricante de guarda-chuvas amado por seus operários, mas que é esposa daquele que recebeu 45% da fábrica como dote e que é seu CEO Robert Pujol (Luchini). Com mão-de-ferro e imenso desprezo para com a classe operária, Robert tenta em vão sufocar a greve. E o resultado: Robert foi sequestrado pelos trabalhadores e, neste processo, acaba tendo um enfarto.

Suzanne toma uma atitude corajosa: assume o lugar do marido na fábrica. Mas o que era para ser temporário e apenas de fachada para acalmar os grevistas acaba se tornando um grande sucesso. E aos poucos vamos vendo Suzanne se transformando em uma mulher bastante feminina, porém com ótima desenvoltura e bastante poderosa em cada uma de suas ações.

Deneuve faz de tudo neste filme. Brinca os mais cinéfilos que só falta ela fazer malabares – pois canta, dança, e interage de maneira a esbanjar perfeição. O filme se passa na década de 1970, quando o Partido Comunista Francês era poderoso e praticamente resumia a esquerda. Nos dando um Dépardieu absurdamente grande, interpretando Maurice Babin, uma imagem saudosa do comunista ex-sindicalista que virou parlamentar. Suzanne e Babin tiveram uma paixão de adolescente muito bem contada na história e a química entre Deneuve e Dépardieu está maravilhosa.

Como o filme se baseia em uma peça teatral, o filme é bastante exagerado nas interpretações, cores e aspectos caricatos dos personagens. Mas, apesar de se passar na década de 70, é bastante atual e a mensagem feminista é passada de maneira suave e muito envolvente. Não é um filme para risos histéricos, mas para aquelas risadas de pessoas de bom gosto e que percebem a crítica ao chauvinismo burguês.

Bem elaborado, "Potiche" promete boas risadas e a "recaída" de amores por nossa eterna "Bela da Tarde".

Ósculos e amplexos!

"Copacabana", 2010: divertido e leve, nos apaixonamos antes de ficarmos irritados.


"Copacabana" (idem) [França/Bélgica], 2010 Direção: Marc Fitoussi Roteiro: Marc Fitoussi Elenco: Isabelle Huppert, Chantal Banlier, Magali Woch, Lolita Chammah Duração: 105 min Comédia/Drama

Os franceses praticamente se tornaram pais do gênero Comédia-Dramática. "Copacabana" é um exemplo disso. Babou (Huppert), de espírito livre e de imensa autenticidade, tem uma complicado relacionamento com sua filha Esméralda (Chammah). Ela não aceita o jeitão adoidado de sua mãe e pede para que não comparaça em seu casamento como garantia de que não ficará envergonhada. A decisão de sua filha fez com que Babou tomasse as rédeas de sua vida, indo para a monótona cidade de Ostende, na Bélgica, a fim de provar que é capaz de ser responsável, de ser uma pessoa normal.

O contraste entre Babou e Esméralda é constante, bem como constantemente é contrastada a vida real com a vida idealizada. Exemplo disso é a tomada aérea da praia de Ostende ao som de samba, é o som alegre da batida brasileira no deprimente balneareo belga. Ela, Babou, vai trabalhar "pescando" turistas para imóveis "timeshare" - apenas um em cada oito amigos que voltam da Europa falam que é um bom negócio, os outros sete chegam a se contorcer de raiva. Melhor explicando, são inúmeras as formas de se pescar o turista para timeshare, que vale desde raspadinhas até mesmo um passeio de limousine. Mas quando o turista entra no prédio, deparará-se com uma agressiva abordagem e quase três horas de palestras, apresentações, tudo para que o impulso o obrigue a fechar negócio. Babou se encontra trabalhando em um sistema considerado por muitos como pura falcatrua.

O filme é uma delícia de se ver. Babou é o carisma é pessoa. Sente muito a falta da filha, mas não perde o sonho de demonstrar que é uma grande mãe. Intervém positivamente na vida das pessoas sempre que pode, ainda que sua própria vida seja uma bagunça. É claro que a visão que ela possui sobre o Brasil é da caricata Copacabana da década de 60, com as mesmas músicas. Mas não ofende, pelo contrário, é um elogio. Mesmo não havendo nenhum segundo sequer no Brasil, o ideal de se estar na colorida, apaixonante, e alegre terra descoberta por Cabral colore o cinza da vida real de Babou. A França é o cinza da vida real, e o Brasil é a cor do sonho. Bem como a cor do sonho deve pintar o casamento de Esméralda, que dá sinais claros de caminhar para um cinza infinito.

Copacabana é divertido e leve. E o público brasileiro não se importará com a caricatura generalizada que sempre nos incomoda, pois já estará apaixonado pela autenticidade de Babou.

Ósculos e amplexos!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

"O Pai dos meus Filhos", 2009: Um filme sem começo, nem fim, apenas meio!


"O Pai dos Meus Filhos" (Le père de mes enfants). [França], 2009. Direção e Roteiro: Mia Hansen-Løve. Elenco: Louis-Do de Lencquesaing (Grégoire Canvel), Chiara Caselli (Sylvia Canvel), Alice de Lencquesaing (Clémence Canvel), Alice Gautier (Valentine Canvel).

Somente após descobrir que o filme é uma homenagem à Humbert Balsan, genial produtor de cinema que se matou quando entrou em falência, é que o filme fez um pouco de sentido. Para quem não possui essa referência acaba assistindo um filme sem muita objetividade, sem mocinho, sem mocinha, sem bandido, sem história, sem nada. Uma pena, pois seus personagens são bastante cativantes, mas sem uma história que os conduzam para qualquer lugar.

O filme conta a história da família Canvel. Ela possui uma mãe atenciosa, três filhas lindas, e um pai para lá de atarefado devido ao seu estafante e corrido trabalho de produtor de cinema. Não é fácil ser a família de um gênio. Ao contrário de sua conta bancária, um gênio não possui limites. E uma das obras mais empolgantes na vida do produtor é justamente o causador de sua falência.

O filme não tem começo, nem fim. Apenas meio. A única surpresa, ação, drama, momento, ou qualquer coisa que acontece no filme está exatamente na metade. Antes da metade, temos um cansativo e competente Louis-Do atuando. Depois temos Chiara Caselli não dando conta nem de sua personagem. O filme fica poluído em meio a tanta informação.

Resumindo, o filme acaba sendo muito fraco - o que é uma pena.

Ósculos e amplexos!

"Um Gato em Paris", 2010: leve e fofa história policial.


"Um Gato em Paris" (Une Vie de Chat) [Bélgica, França, Holanda, Suíça], 2010 Direção: Atores: Dominique Blanc, Bruno Salomone, Jean Benguigui, Oriane Zani. 70 min Animação/Policial/Infantil Jean-Loup Felicioli, Alain Gagnol

Para os brasileiros que tiveram a felicidade de ser iniciado na literatura através dos contos policiais da Coleção Vagalume vão gostar bastante do francês "Um Gato em Paris". Irá então se deliciar aquele que gosta de uma história de detetive leve, bem contada, e com várias referências à filmes consagrados de "Os Bons Companheiros", 1990 à "Aristogatas", 1970. "Um gato em Paris" conta a história da vida dupla de Dino, um gato de uma linda menininha de dia e de um "gatuno" à noite.

A história é bastante convencional, bem como sua animação. Principalmente por estarmos acostumados com as superproduções como as da Disney ou as pesadas animações francesas como "As Bicicletas de Belleville", 2003 e "O Mágico", 2010. As cores são muito bem usadas e os recursos que dão leveza ao ladrão, dureza aos policiais, e "patetice" aos gângsters são atraentes e convincentes. Agrada às crianças e os adultos. O filme se dá ao luxo de algumas "gags" gratuitas, como a do cachorro que vive latindo durante as rondas do gato, sem forçar absolutamente nada na história.

O grande problema é que vieram somente cópias dubladas para o Brasil e que nem sempre conseguem extrair uma boa expressão vocal. E um probleminha é que o fim da história promove uma certa impunidade do qual me incomodou, mas nada que estragasse o filme.

Leve e fofa, uma atração bastante familiar e gostosa de assitir.

Ósculos e amplexos!

"Venus Negra", 2010: mórbido e torturante demais!


"Vênus Negra" (Venus Noire) [França / Itália / Bélgica] , 2010 - 159 minutos Drama Direção: Abdellatif Kechiche Roteiro: Abdellatif Kechiche, Ghalia Lacroix Elenco: Yajima Torres, Andre Jacobs, Olivier Gourmet, Elina Löwensohn

Assombrosamente, trata-se de um filme baseado em uma história real. Ainda mais assombroso é saber que tão somente em 2002 seu corpo foi repatriado, graça ao Presidente Nelson Mandela. Estamos falando da "Venus Hotentote", nome artístico de Saartjie Baartman (Torres), apresentada em um show de horrores como bizarra atração negra, selvagem, de corpo com grandes proporções. Sem dúvida, trata-se de um filme atual, ainda que se passe em 1815.

O filme é torturante. Temos logo ao início o desprazer de ver totalmente o show de horrores, sem cortes, ao lado da plateia inglesa. Ao longo de praticamente vinte e poucos minutos será apresentada uma mulher sendo tirada de uma jaula, sendo humilhada de diversas formas diferentes, sendo tratada como um animal sendo domesticado. Quando não há mais estômago para tamanha humilhação, o Hendrick Caesar (Jacobs) seu sócio e capataz convida a plateia a tocá-la, que o fazem nem sempre com as mãos.

O problema da coisa é que o filme é longo, demasiadamente repetitivo, torturando o espectador até que a revolta perca definitivamente para a repulsa. O que revela um certo sadismo de Kechiche, pois a mensagem já é passada logo nos primeiros minutos da exibição e nada além da tortura é apresentada nos minutos seguintes. A Venus Hotentote é atração de circo em Londres, vira atração da aristocracia em Paris, é vendida para "a ciência, decai e vira prostituta, até que morre... mas tem seu corpo dissecado e exposto em um museu de história natural na França até a década de 1980.

Torturante, foram poucos os que aguentaram até o final tamanha atrocidade.

Ósculos e amplexos!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

"Não se Pode Viver Sem Amor", 2011: complicado lirismo fantástico.


"Não Se Pode Viver Sem Amor" Drama - [Brasil], 2010. Direção: Jorge Durán. Elenco: Cauã Reymond, Simone Spoladore, Victor Navega Mott, Rogério Fróes, Ângelo Antonio, Fabíola Nascimento. Duração: 100 min. Classificação: 14 anos.

O realismo fantástico de Jorge Amado tem um representante póstumo: Jorge Durán. Porém, em "Não se Pode..." há um complicado lirismo apresentado em tela do qual pode não agradar a maioria de seu público. Ele exige uma certa compra das situações fantásticas que acontecem com pessoas comuns, mas a venda não é fácil. Aceitar com naturalidade tantas situações absurdas com persanagens tão bem construídos em uma realidade bem próxima é um desafio e tanto.

Gabriel - vivido pelo estreante e talentosíssimo, Victor Mott, sem dúvidas o ponto alto de todo o filme - vai para o Rio com Roseli (Spoladore) em uma busca por seu desaparecido pai. Dono de uma imaginação e inocência fantástica, capaz até de realizar feitos milagroso - talvez por cativar até mesmo papai do céu com seu olhar e carisma - alimenta seu sonho e vai conduzindo a história de um lado para o outro. A história se entrelaçará com a de Pedro (Antônio), professor deprimido que assume o taxi de seu pai (Fróes) quando esse falece subitamente. No mesmo dia, ele é "mal assaltado" por João (Reymond) que, não sendo bandido, recorre ao assalto a fim de levantar dinheiro para tirar do meretrício sua amada Gilda (Nascimento) e assim viverem juntos como marido e esposa.

Ao se falar em amor, o filme trata a solidão que antecede o encontro com o ser amado. Amargurados, cada personagem desfila em suas ilhas solitárias pouco se importando a gravidade dos rumos que suas vidas estão tomando. Porém, a trama carrega a mão na hora de desestruturar o universo real e lançar o fantástico. Ele pifa na hora de costurar os argumentos e cansa um pouco a coleção de sentimentos e sensações que busca provocar no espectador.

De interessante e bastante sutil é o tempo do filme: natal - que na minha opinião acaba sendo o período mais reflexivo do ano.

Ósculos e amplexos!

"Piratas do Caribe 4", 2011: mais fraco, mas nem por isso pior.


"Piratas do Caribe 4: navegando em águas misteriosas" (Pirates of the Caribbean: On Stranger Tides ) [EUA] , 2011 - 137 min. Ação / Aventura / Fantasia Direção: Rob Marshall Roteiro: Ted Elliot, Terry Rossio Elenco: Johnny Depp, Penelope Cruz, Geoffrey Rush, Ian McShane, Kevin McNally, Sam Claflin, Astrid Bergés-Frisbey, Stephen Graham, Keith Richards, Richard Griffiths, Oscar Jaenada


A franquia Piratas do Caribe tem dois públicos: um que adora Jack Sparrow e outro que adora Johnny Depp. O que adora Johnny Depp não se decepciona nunca vendo sua beleza em cena, seu jeito desajeitado e altamente charmoso de correr, e como dizem minhas amigas dono de "um olhar-convite". Já os fãs de Jack Sparrow sairam um pouco decepcionado, pois o personagem esta um pouco apagado neste quarto episódio.

Finalmente Sparrow (Depp) tem um Norte para sua bússola: encontrar a fonte da juventude. Porém, sem barco - o Pérola Negra foi capturado pelo pirata temido pelos próprios piratas Barba Negra (McShane) - Jack terá que encontrar um barco novo e uma tripulação inteira. Ao começar a busca, descobre que há um impostor se passando por Jack Sparrow e iniciando uma jornada justamente em busca da fonte da juventude. A fim de não revelar muita coisa, pulemos essa parte e entreguemos somente o óbvio: Jack Sparrow irá parar no navio do Barba Negra e será comandado por um antigo affair Angelica (Cruz), justamente a filha do Barba Negra. Em duas outras comitivas também em busca da fonte se encontram a tripulação do agora Comodoro Barbossa e a comitiva misteriosa dos navegadores espanhois.

Tem muita coisa que fica mal transmitida e o filme não dá conta dos detalhes que ele mesmo apresenta. O mito das sereias esta muito transformado, porém ora joga para o espectador a interpretação, ora o próprio filme se encarrega disso e causando uma certa frustração (além de dentes de vampiro que realmente foi de extremo mal gosto). Mas o filme tem seus momentos empolgantes e acaba valendo o ingresso. O romance entre a sereia Syrena (Bergés-Frisbey) e o religioso Philip (Caflin) tem horas de tédio absoluto e horas de necessária aparição - mas galáxias de distância atrás de Elizabeth (Keira Knightley) e Will (Orlando Bloom) dos primeiros três filmes.

No fim das contas, o filme é bacana. Os fãs de Depp terminam por satisfeitos, e os de Sparrow um pouco frustrados e também felizes. E, obviamente, tem uma cena extra depois de quase quinze minutos de créditos.

Ósculos e amplexos!

"Kung Fu Panda 2", 2011: fofo, mas sem o frescor do primeiro filme.


Kung Fu Panda 2 (idem) [EUA] , 2011 - 91 min. Ação / Animação / Comédia Direção:Roteiro: Jonathan Aibel, Glenn Berger Elenco: Jack Black, Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Lucy Liu, David Cross, Jackie Chan, Seth Rogen, Gary Oldman, James Hong, Michelle Yeoh, Danny McBride, Jean-Claude Van Damme. Jennifer Yuh

Seguindo a mesma narrativa do primeiro filme, mas sem as surpresas, o segundo episódio da saga de Po, o desajeitado panda gordo e atrapalhado que se tornou uma lenda do kung fu. Desta vez ele terá que partir com os Cinco Furiosos em uma jornada ainda mais perigosa: derrotar Lorde Shen, um príncipe pavão perigosíssimo que foi banido por seus pais devido sua maldade. A maldade de Shen se deu devido à profecia de que um inimigo preto e branco o derrotaria fez com que ele exterminasse praticamente todos os pandas da China. Mas sobrou um, Po, que também parte em uma jornada em busca de paz interior ao perceber que talvez não seja filho do marreco que o criou.

O filme é para o público infantil, mas agradou muito mais os adultos. Após o incômodo inicial da pré-estreia estar repleta de crianças, foi justamente delas que ouvi as críticas mais estrondosas: "Que filme triste!" E para elas foi mesmo. Colocando-me no lugar de uma criança, o filme se passa quase que inteiramente em meio ao drama de famílias desestruturadas - vamos combinar que esse é um tema assustador até mesmo para adultos. Tanto Po quanto Shen foram afastados de seus pais, o que moldou a vida deles consideravelmente. Po ainda teve a felicidade de encontrar um amoroso pai adotivo. Já Shen foi criado por sua própria conta e maldade.

É claro que a ausência de surpresas atrapalhou um pouco, mas as lutas estão sensacionais e divertidas. Aprendemos um pouco mais sobre os Cinco Furiosos neste filme - já que foi necessário lançar um extra sobre eles, pois o primeiro filme não deu conta.


O filme é bem equilibrado e fofo, aceitável para adultos, talvez muito chato para as crianças.

Ósculos e amplexos!

"Quebrando o Tabu", 2011: assopra, mas nem morde direito.


"Quebrando o Tabu" Documentário - [Brasil/EUA/Portugal/Holanda/Suíça/França/Argentina], 2011. Direção: Fernando Grostein Andrade. Duração: 80 min. Classificação: 18 anos.

O documentário é a apresentação de uma tese que tem o sociólogo e ex-presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso como âncora. Nela, a partir do pressuposto de que o mundo fracassou em sua política de guerra às drogas, investiga-se qual a melhor alternativa para se lidar com o problema da drogadição. Assim, o filme vai colhendo opiniões através de depoimentos de professores, usuários, e de personalidades como Bill Clinton, Jimmy Carter, Dráuzio Varella, Paulo Coelho, e tantos outros e outras.

Em um primeiro momento, não me agradou o filme por parecer ser um elogio ao alter-ego do intelectual Fernando Henrique Cardoso igualmente em "Uma Verdade Inconveniente", 2006 de Al Gore. Vasculhando bem, é possível encontrar vários intelectuais que utilizaram de uma abordagem cinematográfica para defender uma opinião corrente no meio acadêmico e assim promoverem seus alter-egos. E, no caso de "Quebrando o Tabu", vemos exatamente isto.

O filme, por outro lado, não é de todo ruim quando analisamos seu conteúdo. Ele morde ao analisar o fracasso e as consequências nefastas que a política do proibicionismo provoca sobre a população - igualmente ao documentário "Cortina de Fumaça", 2010; mas assopra quando precisa apontar uma direção que realmente quebre o tabu. Talvez o único tabu que se consegue quebrar por aqui é o de debater sobre as drogas, mas o principal que é o de apontar culpados e responsáveis, isto não é feito.

Ósculos e amplexos!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

"O Homem ao Lado", 2009: comédia na Argentina, Drama no Brasil.


"O Homem ao Lado" (El Hombre de al Lado), 2009 [Argentina] Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat Atores: Rafael Spreguelburd, Daniel Aráoz, Ruben Guzman, Eugenia Alonso. Duração: Drama 110 min

Na Argentina foi classificado como Comédia. No Brasil, Drama. Talvez isto anuncie a dificuldade do espectador brasileiro achar graça na ironia argentina. "O Homem ao Lado" é um filme que zomba da pequena-burguesia, que chega a ser cruel com a arrogância da classe média alta portenha. Mas que para o público brasileiro, acaba sendo nada mais que um drama de enredo sem maiores elementos.

Leonardo (Spreguelburd) é um designer de sucesso, rico e famoso. Projetou uma cadeira que se tornou conceito e mora na única casa projetada por Le Corbusier existente nas Américas. Por isso, Leonardo pode se dar ao luxo de dar entrevistas e de lecionar de sua funcional e clean morada. Porém, a vida de Leonardo está longe de ser tranquila. Não por medo de ladrões, uma vez que a casa não foi projetada para evitá-los, ou tampouco devido a legião de estudiosos de Le Corbusier que teimam em querer entrar na casa. Seus problemas surgem, de fato, quando Victor (Aráoz), rude e provavelmente de classe média baixa, resolve abrir uma janela com vista para a casa de Leonardo.

Aos poucos, vamos vendo uma crítica à classe média alta que nega até mesmo a luz do sol para as camadas mais baixas. Com ironia,o personagem Leonardo vai, aos poucos se desmoronando. Vamos assistindo a verdade desnudando aos poucos cada uma das máscaras que ele usa. Vemos que ele não é tão cosmopolita assim, que ele é um desastre como pai, que a intelectualidade e amigos intelectuais são grandes embustes, até mesmo seu caráter é questionado dada sua ausência de sinceridade. Vai aos poucos demonstrando ser um grande banana, incapaz de expor sua própria opinião. Tudo o que faz é mascarado, é desonesto, é sovina. Já o grosseirão Victor é o extremo oposto. Vamos assistindo o sapo virando príncipe. Vamos vendo que o ser obscuro, tipicamente machão, é na verdade uma grande pessoa. Honesto, ligado à família, pessoa que não tem pudores em entreter a filha do ingrato vizinho.

A luta de classes é o pano de fundo desde o primeiro momento da película. O homem ao lado vai derrubando à marteladas a classe burguesa, incomodando-a, expondo suas podridões e a envergonhando. Porém, o filme não acredita em conciliações entre classes, tampouco entre vizinhos, e revela um final surpreendente.

Não me lembro de ninguém no cinema ter esboçado um sorriso sequer ao longo da exibição. Para o público brasileiro, o tapa de luva bateu na carapuça que bem lhe serviu. Tornou-se um drama, sem maiores conciliações entre operários e burgueses.

Ósculos e amplexos!

"Tetro, 2009": é sempre bom ver Coppola em forma!


"Tetro" (idem) [EUA/Argentina], 2009 - 127 min. Drama Direção: Francis Ford Coppola Roteiro: Francis Ford Coppola Elenco: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich, Maribel Verdú, Klaus Maria Brandauer, Carmen Maura.

A proposta é digna de um mestre: depois de realizar "Poderoso Chefão", 1972 e "Apocalipse Now", 1979, produzir algo com elevado nível de recursos técnicos, mas com orçamento de médio porte, pela primeira vez. É uma espécie de uma aventura amadora realizada por um mestre que encontra a necessidade de crescer mais um pouco. E ainda tem a vantagem de poder pagar seu próprio filme, não se preocupando com qualquer apelo comercial dele. Isto é "Tetro"!

Em preto e branco, com flashback em cores, o filme conta a história de Bennie (Ehrenreich), um garçom de cruzeiro que, na semana de seu aniversário de 18 anos, aproveita uma escala de seu navio em Buenos Aires para encontrar seu irmão, Angelo (Gallo), que não o vê há anos. Chegando no boêmio bairro portenho La Boca, descobre que agora ele se chama Tetro e que vive com Miranda (Verdú), a única que lhe dá um pouco de boa receptividade. Tetro se recusa falar de sua própria família, prefere chamar de irmão um amigo de boemia ao seu próprio irmão. Enfim, é um encontro que faz com que Bennie busque sobre seu passado, mas que ao mesmo tempo é negado por seu irmão. A busca por respostas que Bennie passa a empreitar com valentia será causador de ainda mais discórdia entre os irmãos.

O filme é ao mesmo tempo uma ópera e um tango. Envolve dramas familiares, segredos destrutivos, conflito de gerações, romance, violência, e uma pitada de sensualidade. Muito mais teatral que sentimental, a história de Tetro corre paralela à história de Bennie. E toda vez que uma ameaça cruzar com a outra, um desastre acontece. Miranda (Verdú) é a responsável por aliviar um pouco as tensões. Namorada de Tetro, ela é quem mobiliza tudo o que está ao seu alcance para que mais sobre a história de seu amado Tetro possa lhe servir de cura para sua insana negação de si. Ela é a única pelo qual Tetro não busca negar, talvez por ser a única em que ele vê uma espécie de auto-profilaxia.

A vida de Tetro e de Bennie é de uma tragédia tão imensa que a obra inacabada de Tetro é adaptada para o teatro graças a Bennie. Eis que entra em cena a maravilhosa, com um óculos gatinha pavoroso, Alone (Carmen Maura). Crítica poderosíssima e antiga professora de Tetro, ela possui um festival de teatro reconhecido por toda a Argentina. Ela patrocina a montagem da história que Tetro tanto busca negar e Bennie desvendar.

Enfim, falando do filme, maravilhar-se com a fotografia é a coisa mais simples que o espectador sente diante da tela. Envolver-se com a dureza da história já é mais difícil. Não há como se identificar com nenhum personagem e justamente por isso o filme recebeu tantas críticas negativas. Para piorar, a encenação de Gallo chega a ser desconfortante. E a estreia de Ehrenreich o faz se aproximar de Leonardo DiCaprio tanto pelo seu charme, tanto pela sua semelhança, bem como também por uma imensa dificuldade em se expressar. Mas é a operística tragédia final é que temos vontade de levantar e aplaudir o filme dentro da sala de cinema.

E tão somente quando abaixam-se as cortinas, ou melhor, quando a trama chega ao seu fim, é que temos a dimensão do todo e nos apercebemos que o mestre voltou e esta em forma. Um filme de primeira linha, ainda que não chegue aos pés das maiores obras de arte de Coppola.

Ósculos e amplexos!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

"Amor?", 2011: híbrido pertubador


Amor?, 2011 [Brasil] Direção: João Jardim Roteiro: João Jardim, com a colaboração de Renée Castelo Branco Elenco: Lilia Cabral, Eduardo Moscovis, Letícia Collin, Cláudio Jaborandy, Silvia Lourenço, Fabíula Nascimento, Mariana Lima, Ângelo Antônio e Júlia Lemmertz. Duração: 100 min. Drama/Documentário


Um letreiro inicial nos prepara para o que virá pelos próximos cem minutos: algo que, de tão forte, precisa ter seus reais autores preservados. Deste ponto em diante, veremos um espetáculo de interpretação, simbologia, tudo formando um híbrido pertubador entre ficção e realidade.

O filme é uma espécie de documentário onde se aborda a questão da violência entre casais. A pergunta inicial inexiste, havendo somente depoimentos sobre a violência sofrida ou infringida e tentativas de explicação de seu porquê. Para preservar os envolvidos, vários atores emprestam suas interpretações aos depoimentos reais. O nome do filme nos dá ideia da intenção do filme: a causa da violência é o amor? Isto é amor?

A brutalidade das situações esta presente ao longo de cada uma das histórias, ainda que a gravidade das violências vão crescendo ao longo do filme. Entre um depoimento e outro, temos belíssimas imagens de corpos, pele, água, e até mesmo o gemido de uma relação sexual nos dando uma poética refrescada e nos preparando para aguentar a próxima paulada.

Não tem como dizer que um ou outro esta melhor ou pior. Do conformismo interpretado por Lilia Cabral, o depoimento com um telefone ao ouvido de Moscovis; as duas formas de contar a mesma história (eu ainda acredito que houve aqui uma espécie de espelhamento entre as depoentes, mas é coisa minha) pela Silvia Lourenço e minha conterrânea Fabíula Nascimento; o nojo que Ângelo Antônio provoca; a inocência abusada de Letícia Collin; todos são, ao seu modo, um espetáculo de interpretação. Agora, quem me derrubou foi a Júlia Lemmertz. Se alguém tinha alguma dúvida se ela é uma boa atriz, é depois do depoimento que ela demonstra ser excelente. Dá para se sentir acuado, explodindo em choro toda a situação vivida e narrada.

O filme não nos dá resposta. Apenas nos conduz em uma série de narrativas que nos farão refletir sobre a violência entre casais. Desde a violência moral, passando pela verbal, e chegando às vias de fato, todas são terríveis e deixam marcas muito maiores que hematomas. Há ainda quem crie distúrbios e se vicie na relação doentia que a violência pode provocar.

Não há como sair da exibição sem refletir em todas as vezes em que fizemos alguém sofrer por achar que isso é amor. O filme nos demonstra que o abuso é mais constante do que podemos imaginar. São atores, mas poderiam ser nossos vizinhos, parentes, nós mesmos, nossos companheiros ou companheiras. Não há como se sentir bem diante tanta atrocidades, que alguns a justificam como sendo amor.

Sem dúvidas, pertubador e excelente!

Ósculos e amplexos!

terça-feira, 31 de maio de 2011

"O Poder e a Lei", 2011: seu enredo o faz ser um filme satisfatório.



"O Poder e a Lei" (The Lincoln Lawyer ) [EUA] , 2011 - 118 minutos Policial Direção: Brad Furman Roteiro: John Romano, Michael Connelly Elenco: Matthew McConaughey, Ryan Phillippe, Marisa Tomei, John Leguizamo, William H. Macy, Josh Lucas, Michael Peña, Bryan Cranston, Frances Fisher, Shea Whigham, Margarita Levieva


Que boa surpresa ver um filme abrindo mão de seu principal trunfo logo depois de 1/4 de sua exibição. Tive a sensação de que houve uma troca de damas logo no início da partida de xadrez. Destemido, o roteiro vai nos dando reviravoltas e mais reviravoltas. E quando menos percebemos, somos surpreendidos inteligentemente a cada momento.


Mick Haller (McConaughey) é um advogado "porta-de-cadeia" bastante caricato. Seu escritório é dentro de um carro Ford Lincoln e seus clientes lhe contratam para defendê-los diante de tribunais penais. Mas, como advogado porta-de-cadeia que é, sua filosofia é: mais vale um culpado solto que um inocente preso, portanto, todos devem ser defendidos e inocentados. Porém, seus poucos valores, sua forma de atuar e até mesmo a segurança de sua família serão todos abalados diante do caso de um jovem playboy, Roulet (Phillippe) que o contrata para defendê-lo da acusão de ter espancado uma mulher. E realmente não posso contar mais nada, pois não recomendo nem que se assista ao trailer para que não se estrague nada.



É claro que o filme possui inúmeros problemas, mas todos são meros detalhes - e detalhes em filmes como esse, se não atrapalham ou não ajudam, devem ser simplesmente esquecidos. Temos um advogado muito bem montado e convincente, sem aquele irritante superpoder que os filmes de tribunal acabam apelando. Marisa Tomei e seu belíssimo sorriso, que está um pouco apagadinha no filme, dá sua contribuição de maneira bastante discreta, porém necessária. Até mesmo a insuficiente interpretação de Phillippe não atrapalha. Portanto, todos os defeitos estão perdoados, pois não atrapalham em nada.


As qualidades é que fazem o filme satisfatório. Não é brilhante e está longe de ser um ícone do gênero. Mas é sincero em cada reviravolta. As cenas de tribunal conseguem exercer fascínio, não por brilhantes intervenções do advogado, mas pelo xadrez que esperamos ver sempre que a corte é mostrada na sétima arte. E o enredo é o grande responsável pelo filme.


Somente o carro e seu condutor é que o filme simplesmente se esqueceu de dar uma história para eles.


Ósculos e amplexos!

"Se Beber Não Case 2", 2011: Nojento, pegajoso, de humor baixo nível.



Se Beber, Não Case! 2 (The Hangover Part II). EUA, 2011. Direção de Todd Phillips. Com Bradley Cooper, Zach Galifianakis, Ed Helms, Justin Bartha, Paul Giamatti, Ken Jeong, Jeffrey Tambor, Mike Tyson,Mason Lee, Jamie Chung, Nick Cassavetes.Warner. 102 min.


Nojento, pegajoso, de humor baixo nível, são adjetivos que o público de "Se Beber Não Case 2" procuram. Tais adjetivos e tantos outros foram garantia de sucesso absoluto para o primeiro filme da saga. Na segunda parte (e conta a "fofocaria" que haverá mais um outro episódio), não há limites para o absurdo. Seguindo com rigor o modelo do primeiro filme, porém de maneira muito mais linear, desta vez é Stu (Ed Helms) quem irá se casar. Precavido, dispensa a despedida de solteiro e convida poucos amigos para ir à Tailândia - local onde reside a família da noiva de Stu. A dois dias do casamento, ele aceita uma inocente cerveja ao redor de uma fogueira na praia e, ao acordar no dia seguinte, vê que a noite lancinante que ocorreu em Las Vegas se repetiu, dessa vez em Bangkok. Alan (Galifianakis) está com a cabeça raspada, Stu tem uma tatoo imensa no rosto, e Phil (Cooper) é o que tem que ficar calmo ao ver que tudo aconteceu novamente. Daí por diante, o filme é uma busca pelas sujas recordações que o público tanto anseia.

Francamente, eu não pertenço ao público de "Se Beber Não Case". Não consigo ver graça alguma vendo um macaco fumando ou simulando sexo oral em um monge bem idoso (discordo, portanto, de Alan - que diz que isso tem graça em qualquer idioma). Também não consigo rir de um dedo decepado ou de piadas com travestis. Não consigo admirar o humor de Galifianakis - o que é obrigatório para embarcar no filme. E realmente reprovo a exibição de cenas com crianças fumando, bebendo, enfrentando a polícia e outras bobagens, mesmo que seja mera indicação de como Alan se vê com seus amigos. Porém, é o que o público deste tipo de filme tanto gosta de ver.

Então, emprestando o olhar de quem gosta deste tipo de filme, ele é um pouco pior que o primeiro. Muito mais voltado para o público masculino, as piadas provocam todos os tipos de situações com um pênis que se pode imaginar. A energia cômica é bastante instável, chegando a momentos de muito tédio na tela. Tudo é muito previsível. Até os segredos do filme não são tão bem explorados assim. A passagem de Mike Tyson não é tão engraçada.

Novamente, pensando como um do público de "Se Beber", tão somente as fotos é que dão o elemento surpresa e de real impacto do filme.

Ósculos e amplexos!


"Um Novo Despertar", 2011: original e gracioso, mas pouco elaborado.



"Um Novo Despertar" (The Beaver) 2011 , [EUA] - 91 min. Drama Direção: Jodie Foster Roteiro: Kyle Killen Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, Anton Yelchin, Cherry Jones, Riley Thomas Stewart, Jennifer Lawrence


Não é a primeira vez na história do cinema em que o ventriloquismo está presente, porém em "Um Novo Despertar" ele é abordado de maneira bastante original. Com uma dramaticidade densa, o terceiro filme de Jodie Foster aborda a história de Walter (Gibson), um maníaco depressivo que passa a se expressar através de um castor de pelúcia à sua mão. Através do castor, ele volta a ser um pai presente ao filho mais novo Henry (Stewart) e tira a sua empresa da falência. Porém, sua esposa Meredith (Foster) e seu filho mais velho Porter (Yachin) não conseguem ver com bons olhos o que todo mundo entende como melhora no quadro de Walter.

Apesar de haver momentos de alívio cômico, trata-se de um filme dramático. Estamos falando de um depressivo em um estágio tão avançado que nenhum tratamento mais faz sentido. E neste momento a crítica incide diretamente na família que, em um primeiro momento apenas suporta (e mal) a situação para logo depois abandoná-lo - o filme não deixa muito claro se é para que ele reaja ou simplesmente por não aguentarem mais o peso morto, pois oscila entre um e outro nos poucos momentos em que tenta evidenciar isto. A alternativa foi a auto-expressão, porém feita de maneira desacompanhada por um profissional. Eis o charme do roteiro e a originalidade em que a produção aborda um interessante aspecto da depressão.

O filme peca em diversos momentos. Meredith, apesar de muito bem interpretada pela belíssima e carismática Jodie Foster, não é personagem bem desenvolvida. Não se sabe dizer muito bem o que ela faz. Não se sabe se ela trabalha construindo montanha-russa ou se isso também é apenas um passatempo de uma dona-de-casa também deprimida. Também bastante superficial a história paralela que acontece entre Porter e Norah (Jennifer Lawrence), que praticamente não contribui com o filme e por vezes se torna cansativo por ser a base explicativa do filme do qual não funcionou muito bem.

Há momentos interessantíssimos como o sexo à três entre Walter, Meredith e o castor onde o drama e a comicidade estão juntas e confusas como uma psicopatia. Além de outras situações como o banho e a briga entre pai e filho. Mas, por outro lado, aparentou-se que o filme iria partir para um drama quando Walter diz que o castor tem vida própria e acabou recuando na proposta sem maiores qualidades. De igual maneira, todas as referências que Porter vai criando para se distanciar das semelhanças de seu pai acabou sendo um grande tempo perdido, pois não colabora com quase nada ao desenrolar da trama. Até mesmo a linda e excelente atriz Jennifer Lawrence acabou tendo um personagem complexo, porém sem tempo para melhor desenvolvê-la.

O filme é gracioso. Gibson possui seu charme em forma, apesar do alcoolismo e das declarações antissemitas. Sua cara de maluco é realmente graciosa, mas infelizente ele abusa de uma delas apenas. Foster, apesar de uma dona-de-casa não encaixar muito bem em seu perfil de bela e inteligente, é convincente na hora em que tem que dar carga dramática ao filme. É daqueles filmes em que se tem que comprar a ideia, senão se torna tedioso. E o fim acaba desapontando, pois força a mão em um final romântico que achei desnecessário.

Ósculos e amplexos!

terça-feira, 24 de maio de 2011

“PONYO”, 2008 (2010): fantasia à beira do mar






"Ponyo: uma amizade que veio do mar" (崖の上のポニョ) [Japão], 2008 - 101 min. Animação / Fantasia / Infantil Direção: Hayao Miyazaki Roteiro: Hayao Miyazaki Elenco: Noah Cyrus, Yuria Nara, Frankie Jonas, Hiroki Doi, Tina Fey, Tomoko Yamaguchi, Matt Damon, Kazushige Nagashima, Cate Blanchett, Yuki Amami, Liam Neeson, George Tokoro, Cloris Leachman, Betty White, Lily Tomlin, Kurt Knutsson, Jenessa Rose, Noah Lindsey Cyrus, Jôji Tokoro



O público brasileiro teve algumas dificuldades para apreciar a história de Ponyo. O filme demorou dois anos para chegar no Brasil (julho de 2010) e não foi bem divulgado. Para ajudar, o filme é inteiramente contado pelo ponto de vista de uma criança e não alivia em nada para a compreensão adulta. E ainda, por diversas vezes, a narrativa é sacrificada em nome do efeito emocional. Sem falar que a narrativa japonesa é por vezes incompreensível para o público mais ocidental.



Não é nenhum crime dizer que Ponyo é uma versão japonesa para "A Pequena Sereia", de Hans Christian Andersen e suas várias versões para o cinema. Afinal, Ponyo é uma peixe filha do mágico e empresário oceânico Fujimoto - de trajes listrados e cabelos soltos à "Yellow Submarine" dos Beatles – com a deusa do mar. Fujimoto possui um imenso despreso pela humanidade devido ao lixo que jogam no mar. Porém, Ponyo foge de seu pai em direção à terra firme – em uma divertida cena em que ela corre sobre grandes ondas. Em terra, Ponyo estabelece um fortíssimo vínculo com Sosuke, garoto de cinco anos e queridinho das idosas da casa de repouso onde sua mãe trabalha. Para que a terra não seja inundada em retaliação de Fujimoto, Sosuke tem que provar que ama Ponyo de verdade.



O cuidado em ser uma animação bem feita e sem imagens geradas por computador já faz do filme uma obra de arte. Ela é charmosa, contém uma poética visual incrível e cativante. Seu enredo é bastante simples, leve, e divertido. Não há mocinhos ou bandidos, mas circunstâncias em que podem gerar conflitos entre personagens. Ao mesmo tempo em que ela aborda sobre famílias, possui uma mensagem ecológica.



Ainda que tenha tido alguns solavancos para o público brasileiro, talvez o único problema do filme seja a grudenta musiquinha ao final da exibição – mas não chega a ser nenhum defeito. Até mesmo a sensação de labirintite ao longo de toda a exibição pode até ser uma vantagem do filme.



Ósculos e amplexos!

“O LIVRO DE ELI”, 2010: bom até o fim, quando desanda.



"O Livro de Eli" (The Book of Eli) [EUA], 2010 - 118 min. Ação / Aventura / Ficção científica Direção: Allen Hughes e Albert Hughes Roteiro: Gary Whitta Elenco: Denzel Washington, Gary Oldman, Mila Kunis, Ray Stevenson, Jennifer Beals, Evan Jones, Joe Pingue, Frances de la Tour, Michael Gambon



O cenário é apocalíptico. Um andarilho (Denzel Washington) segue rumo à Oeste em meio ao que sobrou do mundo. A ausência de água faz dela mais valiosa do que muitas vidas. E sem água, alimento também é absurdamente raro. Porém, o andarilho tem algo consigo que o faz especial. Ele detém um livro do qual poderá salvar a humanidade e do qual está disposto ao que for necessário para defendê-lo. E justamente por possuir uma habilidade extraordinária para defender o seu livro, o andarilho chama a atenção de Carnegie (Gary Oldman), uma espécie de tirano prefeito de um vilarejo e que há tempos busca um livro pelo qual o tornará líder de toda a humanidade. Daí por diante, segue a história do andarilho querendo cumprir sua missão de levar o livro para o Oeste e dos esforços do tirano para impedi-lo.




"O Livro de Eli" tem uma fotografia interessante, praticamente cinza o tempo todo a ponto de sentirmos o clima absurdamente árido que vemos na tela. Sua história nos envolve a ponto de logo nos simpatizarmos com o andarilho e odiarmos o tirano. A precisão dos golpes e a afiadíssima arma dão o tempero da ação necessária. Tudo perfeito ao longo de praticamente dois terços do filme.



O bolo desanda justamente na terceira parte do filme. Na primeira parte, o filme é um bem apresentado "road movie". Assar um gato e dar um pedaço dele a um rato é de uma ironia muito requintada. A segunda parte é um "faroeste" bastante caricato, porém nem por isso ruim. Duelos, combates desiguais, salvar a mocinha, até mesmo as famosas cenas de "saloon" estão todos lá de maneira bem distribuída. Na terceira parte, temos em meio a uma perseguição a pressa em se terminar o filme e aquela mania xarope de se explicar absolutamente tudo detonando o que veio anteriormente.



Por outro lado, mesmo que a terceira parte do filme tenha sido consideravelmente fraca e cheia de solavancos no enredo, ela reserva bons momentos. O casal de velhinhos simpáticos são de arrepiar e a música na radiola dá um alívio cômico em um momento bastante necessário.



Concordo com alguns amigos que disseram que se o filme terminasse uns cinco minutos antes ele talvez não provocasse a sensação de "o que raios foi que aconteceu". Um final defeituoso que chega a se descolar de tudo o que foi mostrado até então.



Obviamente que não se deve falar o que é o tal do Livro de Eli, ainda que praticamente todo mundo já saiba do que se trata. Por isso, sou obrigado a encerrar esta análise por aqui mesmo.

Ósculos e amplexos!

“NINJA ASSASSINO”, 2009: tautologia com muito sangue.



"Ninja Assassino" (Ninja Assassin) [EUA] , 2009 - 99 min. Ação Direção: James McTeigue Roteiro: Matthew Sand e J. Michael Straczynski Elenco: Rain, Naomie Harris, Ben Miles, Rick Yune Sho Kosugi



Um ninja ser assassino não seria uma tautologia? Pondo a redundância de lado, se você gosta de filme com muita ação, pancadaria, rios de sangue, e pouca história, este é o seu filme.


Mika (Harris) é uma agente da Europol fascinada pela sua investigação que a levou a confeccionar um relatório bastante inusitado sobre a existência de clãs ninjas. Nesta investigação, ela descobre a existência de um dos clãs ninjas, o Ozu. É neste momento em que ela encontra um envelope contendo areia preta esperando por ela em seu apartamento: símbolo de que ela se tornou alvo do clã e que é questão de tempo para ser executada. Porém, ao seu lado, ela recebe a ajuda de Raizo (Rain), ninja desgarrado do clã Ozu que deseja vingança pela morte de seu amor e também ninja.


Filmes de artes marciais se tornaram um gênero bastante próprio no cinema. Desde a década de 1960, ele tem revelado verdadeiros heróis como Bruce Lee, Jean-Claude Van Damme, Jet Li e tantos outros. Mas, filmes de ninja seria então um sub-gênero bastante interessante. Ele surge com força no final dos anos 1980, fechando um ciclo bastante rico para o gênero de artes marciais. E o que chama mais a atenção é que, diferente dos filmes de luta no qual se estabelece em uma versão estadunidense do cinema de Hong Kong, os de ninja são inteiramente inventados e estabelecidos pelo cinema ocidental de língua inglesa.


Após a década de 1980, salvo algumas péssimas tentativas, o que se viu no cinema foram apenas algumas adaptações e algumas paródias como a série "As Tartarugas Ninja" (1990, 1991, 1993 e 2007), "9 ½ Ninjas", 1991; "3 Ninjas Contra-Atacam", 1994; e tantos outros. Portanto, "Ninja Assassino" é a primeira tentativa depois de quase duas décadas de ausência deste subgênero.


O filme, portanto, é para um público que há tempos queria ver os ninjas na telona. O que significa que desejam ver muita ação, pancadaria, e toda a mística que envolve o obscuro mundo dos assassinos encapuzados. E quanto a isso, o filme não decepciona. Ainda apresenta muito, mas muito sangue e efeitos sobre as armas de maneira ostensiva.


Quanto à história? Quem liga para ela? Braços e pernas decepadas, música alucinante, e a beleza da luta é o critério fundamental que deve preencher a tela. Além disso, apresenta um dos maiores elencos asiáticos em um filme ocidental de todos os tempos.


Todos os sacrifícios ao enredo, para este público, estão perdoados.


Ósculos e amplexos!

“INVICTUS”, 2009: o rugby na luta pelo fim do apartheid.



"Invictus" (idem) [EUA], 2009 - 134 min. Drama Direção: Clint Eastwood Roteiro: Anthony Peckham, John Carlin (livro) Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Patrick Mofokeng, Matt Stern, Patrick Lyster, Penny Downie, Shakes Myeko


Invictus é o nome de um poema vitoriano do qual serviu de fonte de esperança para Nelson Mandela durante seus 27 anos de prisão por enfrentar a segregação racial do chamado regime Apartheid na África do Sul. Tamanha a segregação entre brancos e negros, que havia separação em praticamente tudo, desde bancos de ônibus, escolas e bebedouros, até mesmo idioma. No esporte não poderia ser diferente. Enquanto o futebol era o esporte dos negros, o rugby era o dos brancos. E, já presidente, com a esperança de superar de vez o fim do apartheid, Mandela investe pesado para que o rugby seja o esporte do povo da África do Sul, sem qualquer distinção racial.


Inspirado em fatos reais, "Invictus" apresenta ao mundo que o processo de superação do apartheid não foi e não é uma coisa simples. Que mesmo elegendo um presidente negro, havia muita coisa a ser feita para que a nação fosse de fato uma só e não mais dividida entre brancos e negros. Ao mesmo tempo, apresenta para o mundo o irmão "quase" gêmeo do futebol: o rugby. Tudo isto em véspera da Copa do Mundo de Futebol, que em 2010 teria a África do Sul como sede, portanto, o filme ainda serve de voto de confiança – se a África do Sul foi capaz de sediar o mundial de rugby em uma época muito mais complexa, será capaz de sediar também o de futebol em outra época consideravelmente melhor.


O filme nos apresenta uma das melhores atuações de Morgan Freeman e Matt Damon. Freeman praticamente virou sósia perfeita de Nelson Mandela. Trejeitos, sotaques, e tantos outros detalhes são interpretados de maneira assustadoramente fidedigna. E Damon faz um gigante jogador, de fortíssimo sotaque africâner, do qual chegamos a jogar bola junto com ele com imensa facilidade. Além disso, vemos uma direção de Clint Eastwood bem feita, competente, demonstrando sua maturidade ao longo de dez anos de filmes bem-sucedidos e uma intervenção interessante quanto à sua visão acerca da política (suja e escura nos gabinetes, alegre e colorida fora dela).


O esporte alimenta tantas paixões quanto à política. A figura de Nelson Mandela compete de igual para igual com o time de rugby sul-africano. Apresenta, inclusive, os inusitados jogadores da Nova Zelândia, agradando também os fãs do esporte. E elegantemente, o filme vai do esporte à política, retornando ao esporte, sem prejudicar nenhum deles. Sugerindo uma simbiose bastante simpática, ainda que haja inúmeros atropelos.


É lindo e emocionante como um jogo bem disputado.


Ósculos e amplexos!