segunda-feira, 6 de junho de 2011

"O Homem ao Lado", 2009: comédia na Argentina, Drama no Brasil.


"O Homem ao Lado" (El Hombre de al Lado), 2009 [Argentina] Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat Atores: Rafael Spreguelburd, Daniel Aráoz, Ruben Guzman, Eugenia Alonso. Duração: Drama 110 min

Na Argentina foi classificado como Comédia. No Brasil, Drama. Talvez isto anuncie a dificuldade do espectador brasileiro achar graça na ironia argentina. "O Homem ao Lado" é um filme que zomba da pequena-burguesia, que chega a ser cruel com a arrogância da classe média alta portenha. Mas que para o público brasileiro, acaba sendo nada mais que um drama de enredo sem maiores elementos.

Leonardo (Spreguelburd) é um designer de sucesso, rico e famoso. Projetou uma cadeira que se tornou conceito e mora na única casa projetada por Le Corbusier existente nas Américas. Por isso, Leonardo pode se dar ao luxo de dar entrevistas e de lecionar de sua funcional e clean morada. Porém, a vida de Leonardo está longe de ser tranquila. Não por medo de ladrões, uma vez que a casa não foi projetada para evitá-los, ou tampouco devido a legião de estudiosos de Le Corbusier que teimam em querer entrar na casa. Seus problemas surgem, de fato, quando Victor (Aráoz), rude e provavelmente de classe média baixa, resolve abrir uma janela com vista para a casa de Leonardo.

Aos poucos, vamos vendo uma crítica à classe média alta que nega até mesmo a luz do sol para as camadas mais baixas. Com ironia,o personagem Leonardo vai, aos poucos se desmoronando. Vamos assistindo a verdade desnudando aos poucos cada uma das máscaras que ele usa. Vemos que ele não é tão cosmopolita assim, que ele é um desastre como pai, que a intelectualidade e amigos intelectuais são grandes embustes, até mesmo seu caráter é questionado dada sua ausência de sinceridade. Vai aos poucos demonstrando ser um grande banana, incapaz de expor sua própria opinião. Tudo o que faz é mascarado, é desonesto, é sovina. Já o grosseirão Victor é o extremo oposto. Vamos assistindo o sapo virando príncipe. Vamos vendo que o ser obscuro, tipicamente machão, é na verdade uma grande pessoa. Honesto, ligado à família, pessoa que não tem pudores em entreter a filha do ingrato vizinho.

A luta de classes é o pano de fundo desde o primeiro momento da película. O homem ao lado vai derrubando à marteladas a classe burguesa, incomodando-a, expondo suas podridões e a envergonhando. Porém, o filme não acredita em conciliações entre classes, tampouco entre vizinhos, e revela um final surpreendente.

Não me lembro de ninguém no cinema ter esboçado um sorriso sequer ao longo da exibição. Para o público brasileiro, o tapa de luva bateu na carapuça que bem lhe serviu. Tornou-se um drama, sem maiores conciliações entre operários e burgueses.

Ósculos e amplexos!

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