terça-feira, 24 de maio de 2011

“ONDE VIVEM OS MONSTROS”, 2009: a turbulenta mente de uma criança de nove anos de idade.

"Onde Vivem Os Monstros" (Where The Wild Things Are) [EUA], 2009 – 101 min Drama / Fantasia Direção: Spike Jonze Roteiro: Spike Jonze, Dave Eggers, Maurice Sendak Elenco: Max Records, James Gandolfini, Catherine Keener, Paul Dano, Catherine O'Hara, Forest Whitaker, Michael Berry Jr., Chris Cooper, Lauren Ambrose



Mais um filme com criança, repleto de bichos em um mundo encantado, baseado em um livro infantil e muito popular no jardim de infância, mas que acabou sendo feito para adultos. Não se trata, definitivamente, de um entretenimento familiar daqueles onde se reúne toda a família para assistir uma história de bichinhos fofinhos que tomam forma real. Trata-se de um filme que se passa na turbulenta mente de uma criança de nove anos de idades. É uma obra sobre a depressiva necessidade de amadurecer e enfrentar um mundo real cinza, cruel e doloroso.



O filme é baseado no homônimo e conciso livro de 338 palavras, 9 sentenças e 37 páginas de Maurice Sendak, e que se tornou um clássico da literatura dos Estados Unidos. Sua importância para a literatura estadunidense pode ser verificada através de declarações como a do Presidente Obama quando ele diz ser um de seus livros favorito e que o leu mais de mil vezes. Nele, Max (Records) nos é apresentado como uma criança de classe social não muito abastada, de mãe solteira (Keener) e irmão de uma adolescente sem tempo para ele. Quando os amigos de sua irmã destroem seu "forte de neve", Max, em retaliação, destrói tudo o que há em seu quarto. Para piorar, sua mãe leva para casa seu namorado (Ruffalo) e novamente uma explosão de raiva toma conta de Max – ele se veste de lobo e morde sua mãe.



Mandado de castigo, Max em sua imaginação foge de casa e desembarca em uma ilha onde vivem os monstros. Lá é um lugar de grandes desertos e florestas sombrias e que tem como habitantes vários monstros que revelam partes da personalidade (ou da própria psique) de Max: o preferido dele, Carol (Gandolfini), impetuoso e egocêntrico; o dócil e criativo Ira (Whitaker); o companheiro Douglas (Cooper); o bode carente Alexader (Dano); a severa Judith (O'Hara); o lamurioso Touro (Berry Jr) e KW (Ambrose) o sentimento materno recebido. Max se torna o líder deles, transformando-se em uma espécie de pai dos monstros preocupado e assustado quando as criaturas saem do controle.


O filme ganhou ares de filme de arte, mas se simpatizar ou não com ele depende muito do espectador topar a fantasia. E é justamente neste quesito a maior dificuldade da obra: a fantasia é cansativa e triste. A projeção, ao contrário do livro, chega a ter momentos de grande verborragia. É difícil se identificar com qualquer coisa.



A bipolaridade é presente nas músicas, na história, e nos monstros, sendo uma característica marcante em todo o filme. Mas as cores pálidas e escurecida, bem como a neve azulada, não é exatamente atraente para aquele que deseja mergulhar na mente de uma criança – mesmo que turbulenta e depressiva.



O filme não é ruim, apesar de tudo. É bastante triste e seu ritmo é lento como o sono de um usuário de anti-depressivos. Porém, soube explorar bem a depressão infantil em meio a uma elegante narrativa.


Ósculos e amplexos!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"A Sogra", 2005: Às vezes, engraçado.



"A Sogra" (Monster-in-Law) [EUA/ALE] 2005 87 min Comédia Direção: Robert Luketic Roteiro: Anya Kochoff Elenco: Jennifer Lopez, Jane Fonda, Michael Vartan, Wanda Sykes, Adam Scott, Annie Parisse, Monet Mazur, Will Arnett, John Aylward, Lorenzo Caccialanza

O filme causou um certo furor quando de seu lançamento. Jane Fonda voltava às telas quinze anos depois de ela mesmo dizer que não mais voltaria. E o mais interessante: voltou sendo desafiada a enfrentar uma comédia física do qual nunca havia tentado antes. Ela interpreta Viola Fields, veterana apresentadora de TV que surtou no ar - quando entrevistava alguém muito parecida com a Britney Spears. Seu surto não fora gratuíto, minutos antes ela saberia que a jovem da qual ela pensava ser enviada para lhe servir café era na verdade sua substituta. Quando recebe alta do manicômio, tem que enfrentar talvez um estresse ainda maior: seu único filho, o doutor Kevin (Vartan) apresenta sua namorada Charlotte "Charlie" Cantilini (Lopez) e a pede em casamento. Deste ponto em diante, Viola faz de tudo para que o casamento não se concretize sem que Kevin perceba sua intervenção.

Às vezes, o filme chega a ser engraçado. Em geral o filme é bastante sem graça. A história tem um demorado e desnecessário prelúdio para mostrar onde tudo começou na vida de Kevin e Charlie. Quase a metade do filme é sem maiores objetivos, exceto por uma repetitiva apresentação de personagens. Aliás, a quantidade de personagens periféricos e que pouco ou quase nada contribuem para com a história também é imensa. Tudo gira ao redor de Charlie e Viola. Tanto que o filme tem seu momento quando somente as duas tem de conviver juntas por um tempo sob o mesmo teto.

Em busca de um algo a mais para promover o filme, há inumeras "piadas para leitor de Caras ou Contigo". Não me agrada, pois contribuem praticamente em nada para a história e expõe ao ridículo algumas coisas que poderiam sobreviver tranquilamente em anonimato - sem falar que incentiva a busca por uma informação realmente irrelevante. São as piadas de acordo com as fofocas mais famosas entre as personalidades. Jeniffer Lopez, dona de uma generosa retaguarda principalmente para os padrões "prancha" da mulher estadunidense, não teria outro problema para entrar no horroroso vestido de cor pêra senão exatamente por não conseguir passá-lo pelos quadris. E nossa querida Jane Fonda, assustadoramente envelhecida e fora de forma física (logo ela, a rainha dos programas de condicionamento físico na televisão), tem uma personagem que igualmente teve quatro casamentos - sendo um com um milhonário e outro com um cabeleireiro gay.

O filme padece de regularidade, além de ser bastante previsível. De conflitos bastante óbvios, não consegue alcançar a graça pretendida em se explorar o universo paranoico de uma relação egocêntrica entre nora e sogra. Inúmeras situações são apresentadas sem continuidade - uma "ex-ficante" de Kevin o beija e fica por isso mesmo; um fio de cabelo é arrancado para investigação, mas a informação some do filme; uma amiga de Charlie tem relevância alguma para a história; e assim por diante. O próprio Kevin chega a ser desnecessário em boa parte do filme (tanto que o auge acontece quando ele está viajando).

Se por um lado a interpretação corajosa de Jane Fonda e o sorriso de Jennifer Lopez são marcantes, por outro, ainda mais marcante é a participação de Wanda Sykes. Apesar dela fazer uma atrevida doméstica negra típica das comédias de situação dos anos 1950 e que hoje não há a menor necessidade de se explorar este tipo de personagem, sua atuação salva com elegante comicidade o filme de seus momentos mais tediosos. Ela é uma espécie de grilo falante para Viola não acelerar demais na loucura de sogra-bruxa.

Não é que o filme seja ruim - e ele não o é. Apenas sofre por ser fraco e irregular, ainda que por vezes provoque risos.

Ósculos e amplexos!

"Galera do Mal", 2004: comédia adulta com personagens adolescentes.



"Galera do mal" (Saved!) [EUA], 2004 Comédia - 92 min. Direção: Brian Dannelly Roteiro: Brian Dannelly, Michael Urban Elenco: Jena Malone,Mandy Moore, Macaulay Culkin, Patrick Fugit, Chad Faust, Eva Amurri, Martin Donovan, Mary-Louise Parker.


O filme, apesar do (mais uma vez) péssimo título em português, apesar da capa não dizer nada, e apesar de um elenco bastante jovens, não é uma comédia adolescente. Também não é uma sátira religiosa. É uma abordagem bem humorada sobre a intolerância. E nada melhor do que uma escola, reino da intolerância de todos os tipos, para servir de ambiente para o tema.


Em uma tradicional escola cristã (batista, mas bem que poderia ser qualquer outra), há igualmente em outra escola a turma dos descolados e a turma dos perdedores (outsiders) - adotando a gíria que a legendagem brasileira adora usar. Porém, por ser uma escola religiosa com direito a culto e tudo, a turma dos descolados não tem seus destaques com o time de futebol americano, mas com as fanáticas religiosas. Mary (Jena Malone), é uma destacada participante da "panelinha" denominada "Jóias Cristãs". A panelinha é liderada, ou melhor, gira ao redor de sua líder Hilary Faye (Mandy Moore) que se dedica a louvar aquilo que ela mais ama: sua própria popularidade. Porém, de uma brincadeira bastante inocente de se confessar segredos embaixo d'água, Mary ouve de seu namorado, Dean (Chad Faust) que ele acha ser gay. O susto foi tamanho que, após bater a cabeça, Mary tem uma epifania: viu o Senhor lhe ordenar a fazer sexo com seu namorado a fim de salvá-lo com a promessa de ter a sua virgindade restaurada devido a fé e a boa-ação da causa.


Obviamente que Cristo não tem nada a ver com isso. E o resultado não poderia ser mais desastroso para Mary. Ela fica grávida, seu namorado é internado em uma clínica para "des-gaynização" e ela passa a enchergar o fanatismo religioso e toda sua hipocrisia quando passa a ser praticamente cassada por sua até então "muy" amiga Hilary. Hipocrisia que já vinha sendo apontada com toda a ironia do mundo pelos outsiders Roland (Macaulay Culkin), irmão de Hilary, e da única judia da escola Cassandra (Eva Amurri). Para jogar ainda um pouco mais de pimenta na já complexa situação, a mãe de Mary, Lilly (Mary-Louise Parker) tem um caso secreto com o líder religioso e diretor da escola Skip (Donovan) que faz com que ambos nunca saibam o que fazer diante tantos acontecimentos. E o duelo entre perdedores e descolados se dá na medida em que Hilary disputa com Mary o amor do skatista Patrick, filho de Skip.


A ironia toma conta do começo ao fim do filme com situações inteligentes e várias vezes hilárias. Sem apelações, até mesmo na cena em que a rebelde Cassandra em hebraico (?) ameaça mostrar os seios no meio do culto, até a tentativa de Hilary em resgatar a "ovelha perdida" da Mary com uma sessão de exorcismo dentro da van. Mas é quando Hilary arremessa a Bíblia em Mary e essa adverte: - "isso não é uma arma, idiota" é que percebemos que se trata de uma mensagem não contra as religiões, mas contra o fanatismo, a hipocrisia, e o quanto elas podem ser maléficas para todo mundo.


O filme tem alguns defeitos que não chegam a prejudicar no conjunto final. Todos os adultos são idiotas e há uma certa arrogância contra tudo e todos. O filme tem uma suavidade impressionante para o peso do tema, talvez por isso sua abordagem seja tão superficial. Outra coisa problemática é a brincadeira com as clínicas de "desgayzação", onde se fala que é mais para quem manda seus filhos do que para os filhos - não, definitivamente eles não são assim e costumam provocar estragos impressionantes.


Os destaques vão para os quatro atores principais do filme. Culkin está amadurecido, com falas inteligentes, e convincente no papel de "bad boy" paraplégico. Eva Amurri está perfeita como garota problema, sendo o alívio humorístico nas situações mais críticas. Jena Malone consegue ser a protagonista principal sem ofuscar os demais e sem ser ofuscada por eles. E Mandy Moore é uma grata surpresa ao vê-la atuando (ela é uma cantora pop-teen até que bem famosa). O filme serve para entreter e refletir. É suave sem ser bobo. Ainda que reserve certos momentos de pastelão.


Ósculos e amplexos!




"Heroi", 2002: nenhum soco sequer é gratuito.



"Herói" (Ying xiong) [China], 2002 Drama/Épico - 96 min. Direção: Zhang Yimou Roteiro: Zhang Yimou, Li Feng, Wang Bin Elenco: Jet Li, Tony Leung Chiu-Wai, Maggie Cheung Man-Yuk, Zhang Ziyi, Chen Dao Ming, Donnie Yen



Um dos primeiros desafios para quem for assistir "Herói" é se despir da ideia de que um filme com Jet Li sempre é pura pancadaria e pouca história. Por isso, decepcionará quem o assistir querendo ver apenas ação e pancadaria. "Herói" é um filme com Jet Li em que nenhum soco qualquer é gratuito, há uma história, e o visual é digno de contemplação.

O filme inteiro se passa ao longo do diálogo entre um guerreiro sem nome (Jet Li) e o rei da província de Qyn
(Daoming Chen). O guerreiro sem nome obteve, como recompensa tesouros e o direito de se aproximar do soberano por ter matado Espada Quebrada (Tony Leung Chiu Wai), Céu (Donnie Yen) e Neve Voadora (Maggie Cheung) - guerreiros da província de Zhan que por muito pouco não mataram o rei de Qyn. Na medida em que o rei questiona um determinado fato, o guerreiro sem nome revisa suas declarações e assume uma nova abordagem.

No prelúdio, uma importante citação: em uma guerra há herois em ambos os lados. No sonho do soberano de Qyn pela unificação da China reside o mesmo sonho de todas as outras províncias: assegurar a paz. Tais elementos são apresentados por um diálogo austero entre o guerreiro sem nome e o soberano de Qyn. Em cada parte do relato, as cores vão dominando a cena e apresentando o estado de humor do contador da história e de seus personagens. Os golpes e a luta, bem como inúmeros elementos simbólicos da cultura chinesa e da cultura envolta nas história de artes marciais "wuxias". Cada detalhe é entalhado no filme com precisão de um calígrafo - referência importante para a beleza do filme e também para a história narrada.

Tão somente a crítica chinesa não gostou do filme. Segundo eles, a história é carregada de uma concepção pró-monarquia de paz do qual tão somente a revolução maoísta foi capaz de construir. Ou seja, há elementos imperialistas, beirando o fascismo nacionalista, por demais. Enfim, quando se mete em política, o filme acaba sendo uma propaganda anti-socialista e reverenciando um perigoso passado de sacrifícios em nome da terra e seu soberano. O curioso é que o filme não foi proibido e foi recordista de público em toda a China. Para a maioria dos críticos ao redor do mundo, o filme agrada e muito - principalmente pela sua estética.

O filme é agradável aos olhos e de uma narrativa suave, ainda que seja em meio à batalhas e confrontos mortais. É dotado de imensa inteligência ao trabalhar a ambiguidade que envolve a narrativa do guerreiro sem nome, sem adiantar nenhuma das viradas que a história vai enfrentando. A interpretação dos atores em meio a tantas expressões austeras é surpreendente. A trilha sonora é bem escolhida, expressando não apenas as emoções da tela como também a mensagem que o diretor tenta passar e não consegue visualmente.

No fim das contas, acaba se tornando um filme de dimensões épicas em meio aos exageros dos filmes de luta - todos buscando o impacto e a beleza visual, portanto perdoados. Cansa um pouco tantos significados para um código de honra da luta, mas que não prejudica o filme e sua narrativa em nada. Um filme muito bom.

Ósculos e amplexos!

"Os Seis Signos da Luz", 2007: gincana boba.



"Os Seis Signos da Luz" (The Seeker: The Dark is Rising) [EUA] , 2007 - 94 min. Fantasia Direção: David L. Cunningham Roteiro: John Hodge Elenco: Alexander Ludwig, Ian McShane, Frances Conroy, Christopher Eccleston, Gregory Smith, Amelia James Cosmo, Jim Piddock, Amelia Warner, James Cosmo, Emma Lockhart


Há algo mais angustiante que ter 14 anos? Sim, ter 14 anos e ainda ter que salvar o mundo. Mais um filme em que uma gincana pode condenar ou salvar o planeta. Will Stanton (Ludwig) é o sétimo filho de um sétimo filho [não resisto a piadinha: se ele apostar tudo em um cavalo número sete, não dar dar outra: ele ficará em sétimo]. Por causa disto, ele é o caçador (the seeker) dos seis signos da luz, fundamentais para que as trevas (Eccleston) não vença o próximo combate entre mal e bem.


O filme é mais um que tenta pegar carona no sucesso de "Harry Potter" e "O Senhor dos Anéis" e que não obtém muito sucesso. Não possui em seu ator principal o carisma necessário para que a fórmula "aqui sou um Zé Ninguém, mas lá sou O Cara" funcione. Os "guardiões", responsáveis por orientar o adolescente enquanto segue as pistas da gincana não influenciam em praticamente nada ao longo do filme inteiro. E as malvadas trevas não assustam ninguém. Tudo culpa de um roteiro que não dá tempo para que nenhum dos personagens se desenvolva. Sem falar que as frases mais importantes são batidas e desnecessárias como "como posso salvar o mundo se não consigo nem falar com uma menina" e " mesmo a menor luz resplandece nas trevas".


O unico elemento que chegou a provocar um certo pavor foi a dos corvos na árvore em uma cena digna de "Os Pássaros". Mas logo até isso se transforma em um tolo argumento irrelevante para a história. A violência do confronto é prometida, mas fica implícita o tempo todo. Elementos que indicam viradas importantes acabam sendo mal apresentados, tornando-se previsíveis demais e estragando a surpresa. Além disso, o filme busca uma tensão dramática que nunca chega.


Fraco e tolo, o filme é uma gincana boba, de intensões moralizantes, em que se aborda o custo de nossas escolhas de uma maneira destemperada para todos os públicos.



Ósculos e amplexos!

"A Busca Pela Honra", 2005: continuação do romance SUD, melhor que o primeiro.



"A Busca Pela Honra" (The Work and the Glory II: American Zion), 2005 [EUA] Drama Direção:Sterling Van Wagenen Roteiro: Gerald N. Lund / Matt Whitaker Elenco: Sam Hennings (Benjamin Steed) Brenda Strong (Mary Ann Steed) Eric Johnson (Joshua Steed) Alexander Carroll (Nathan Steed) Brighton Hertford (Melissa Steed) Kimberly Varadi (Becca Steed) Colin Ford (Matthew Steed)Sarah Bastian (Lydia Steed, também Sera Bastian Emily Podleski (Jessica Roundy) Jim Grimshaw (Josiah McBride) Jonathan Scarfe (Joseph Smith) Melanie Hawkins (Emma Smith) Frank Ashmore (Martin Harris) Curtis Andersen (Carl Rogers)



Segundo filme da trilogia mórmon "The Work and The Glory", aborda a história da fictícia família Steed em meio à real história dos primeiros anos de A Igreja de Jesus Cristos dos Santos dos Últimos Dias. Diferentemente do primeiro filme que se preocupou em defender a religião mórmon dos preconceitos, o segundo apresenta a vida de uma família ao longo dos primeiros anos de peregrinação mórmon em busca de sua Sião. A intenção aqui é a de mostrar o drama das famílias pioneiras em sua caminhada para sua terra prometida. Ao longo da exibição, importantes aspectos da história mórmon é apresentada - como a expulsão dos Santos do condado de Jackson, Missouri; o Acampamento de Sião; e os primeiros momentos da construção do Templo de Kirtland, Ohio.

Enquanto o primeiro filme buscou um público não mórmon, o segundo é escancaradamente destinado para os membros da Igreja. Sem um Santo dos Últimos Dias ao lado, um não membro terá dificuldade de entender sobre o que foi e o que significou a expulsão dos mórmons do condado de Jackson e a queima do "Livro de Mandamentos; o que foi e o que significou o acampamento de Sião; até mesmo o que é uma bênção de saúde ou uma aposição de nome (semelhante ao Brit Mila dos judeus). E é justamente nestes aspectos que o filme tropeça, inclusive para o público Santos dos Últimos Dias. Não se tem sequer menção à bravura das moças que salvaram o "Livro de Mandamentos" do incêndio durante a expulsão do condado de Jackson; não se tem a correta dimensão do que foi o acampamento de Sião (tampouco a importante formação do quórum dos doze apóstolos com resultado), a bênção de saúde aparenta ser um milagre de Joseph Smith (e não da fé em Jesus Cristo, conforme é a bênção) e outros elementos importante da história mórmon.

Por outro lado, dá uma dimensão interessante para o sofrimento pelo qual passaram os santos em seus primeiros dias de peregrinação pelos Estados Unidos. E o faz por meio do drama da família Steed envolto ao moralizante debate sobre orgulho e perdão. Enquanto no primeiro filme se dá ênfase ao drama entre os irmãos Joshua e Nathan, no segundo a ênfase se encontra entre a família Steed inteira e o patriarca Benjamin. E o filme consegue fazer de maneira bastante interessante e convincente. Exceto talvez em seu final, em que apenas se preocupa em dizer que haverá uma continuação em um terceiro filme, deixando o espectador no ar por causa disso.

Ainda há uma interessante, novamente para o público mórmon, apresentação de personagens importantes como Orson Pratt, Emma Smith, e Brigham Young (que mais tarde seria o segundo Presidente da Igreja e aquele que conclui a peregrinação ao chegar e fundar Salt Lake City). Ao longo do filme vamos sentindo as adversidades dos personagens e sendo transportados para a história da Igreja (que se confunde com a história dos Estados Unidos). Vamos entendendo um pouco mais sobre os motivos da perseguição aos mórmons (no primeiro filme é a cobiça por tesouros, no segundo são questões políticas como o fato dos mórmons serem abolicionistas). Por fim, acaba sendo um filme bastante interessante ainda que se perca entre a história dos Steeds e a história da Igreja, sacrificando a primeira sempre que precisa mostrar a segunda.

O fato de ser inteiramente destinado para um público mórmon, ele não é impeditivo para o públicos não-membros da Igreja. O filme é agradável ainda que falte um pouco de calor emocional do ponto de vista mais cinéfilo.

Ósculos e amplexos!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

"Velozes e Furiosos 5", 2011: francamente, odiei este filme!





"Velozes e Furiosos 5" (Fast Five) [EUA] , 2011 - 130 min. Ação Direção: Justin Lin Roteiro: Chris Morgan Elenco: Vin Diesel, Paul Walker, Dwayne "The Rock" Johnson, Joaquim de Almeida, Jordana Brewster, Chris “Ludacris” Bridges, Tyrese Gibson, Matt Schulze, Sung Kang, Gal Gadot, Elsa Pataky, Don Omar, Tego Caldero.

Nunca fui tão insultado por um filme. "Velozes e Furiosos 5" insultou tanto a minha inteligência quanto ao meu país.

Não foi a completa ausência de roteiro que me insultou. A série começou de uma produção despretenciosa que caiu no gosto dos mais adolescentes. Um filme após o outro o tal do roteiro era da profundidade de um pires de tão razo. Portanto, não esperava muita coisa. Também não foi a propaganda enganosa com o título tanto em português quanto em inglês sobre velocidade. A ausência da principal característica da série, sua marca registrada, que são os pegas entre carros alucinantes não fez tanta falta assim. Muito menos o filme girar entorno de Vin Diesel e The Rock Johnson - quando a série inteira girava ao redor de Brian (Paul Walker), pois a contribuição do personagem para este filme não faria a menor diferença depois que se junta personagens de todos os episódios anteriores (sem a menor preocupação de manter sequer suas personalidades). Minimamente, então, pelo filme ser uma imensa bobagem do começo ao fim e créditos finais.

O insulto começa logo na primeira e eletrizante cena de ação. Dominic Toretto (Vin Diesel) esta em um ônibus prisional, sendo levado para a penitenciária onde irá cumprir a pena de 25 anos pelos feitos cometidos e ilustrados nos filmes anteriores da saga. O espetacular arremesso de ônibus provocou apenas a fuga, pelo jeito sem nenhum arranhão, de Toretto. Para garantir, jornais de todo os Estados Unidos garantem: apenas um fugiu e não houve machucados! Pera lá, um ônibus prisional viaja sem escolta, rodopia a uns 200 quilômetros por hora, e nem um arranhãozinho? Nem um bandido escapou junto? Como são precisos os amigos de Toretto!

Não, o insulto não para por aí. Ele apenas estava começando. Muito pior estava por vir. Sem a menor explicação, Mia (Brewster), Brian (Walker), e Dominic (Diesel) vão parar no Rio de Janeiro. Lá encontram um velho amigo de Toretto que, também sem motivo algum, é chefe de um grupo de favelados armados até os dentes. Sem motivo nenhum mesmo! Não vende droga, não contrabandeia armas, nem sequer palavrão fala! E o mais bonito é que eles guardam a mesma posição, no mesmo lugar do morro, e com a mesma cara, pois há uma outra cena em que eles são requisitados a mostrarem suas armas e eles repetem tudo isto com perfeição!

Se subestimar insistentemente a sua inteligência não for um insulto o bastante, que tal visitar sua casa, bagunçá-la inteira e ainda dizer que sua esposa e filhas são umas vagabundas? Pois é, eles fazem tudo isso sem o menor peso na consciência.

Veja só: que a polícia do Rio de Janeiro não goza de boa fama internacional a gente entende, mas colocar o cofre do bandido - e do qual somente ele consegue abrir - dentro da superintendência da Polícia Militar chega a ser uma cusparada em nossa cara. Sair com esse cofre pelas ruas bem caribenhas do Rio de Janeiro destruindo tudo sem se importar ou machucar ninguém faz cuspir duas vezes. Achou pouco? Que tal um trem de passageiros bem high tech em pleno deserto carioca, com cânions e vegetação idêntica ao do Arizona? Ou a placa de "Bienvenidos"? Ou a mãe chamando por seu "mi filhinu"? Ou a mais hilária de todas as situações: misturar-se entre os carros da polícia sem ninguém perceber que se é um carro da Polícia Civil sendo pilotada por alguém fardado de Policial Militar???

Nenhum ator brasileiro ao longo de todo o filme. Qual a solução que foi adotada para dois brasileiros conversarem entre si no Brasil e não ser em inglês? Dublar toscamente e dar uma banana para a sincronização com os lábios. Chega a parecer aquelas situações patéticas de delay jornalístico entre estúdio e a rual. Hernand Reyes, com seu nome bem brasileiro igualmente ao bem brasileiro deserto e seu trem hightech, por ser interpretado por um português (Joaquim de Almeida), não tem esse problema de dublagem tosca. Mas, um português ensinar que para dominar o Brasil é necessário repetir o que os portugueses fizeram trocando espelhinhos com os índios, faz pular de raiva até o menos patriota dos brasileiros. E a irmã de Toretto? Que perfeição de português que ela fala - melhor do que todos, absolutamente todos, os brasileiros! Jordana Brewster, que cresceu no Brasil, empresta sua estridente voz praticamente sem sotaque à sua personagem Mia Toretto. O problema é que a personagem é estadunidense "da gema".

Agora, a piada de péssimo gosto ficou inteiramente apresentado por Dwayne "The Rock" Johnson!

Ele chega ao Brasil chamando todos, absolutamente todos os policiais de corruptos. Tanto que só acredita na incorruptividade que a recém-viúva e belíssima (e única em todo o filme que possui pelo menos nos seios um pouco das curvas da mulher brasileira) Policial Militar Helena Neves (Elsa Pataky), que não faz absolutamente nada o filme inteiro a não ser se render ao charme de Diesel. Sobe o morro e com um simples comando de voz intimida todos os favelados armados até os dentes (mas que não se dá motivo algum para que eles tenham que se armar tanto - talvez esperando o BOPE). Estraga a festinha bem "chicana", repleta de mulheres "táboas" em roupas minúsculas e sem o menor apelo sexual para qualquer brasileiro, sem dar um tiro sequer. Ou melhor, só baixa a bola quando outro americano diz ao povo brasileiro o que se deve fazer - a lastimável cena do "This is Brraziu!" de Vin Diesel. E a tão esperada pancadaria entre The Rock e Diesel é decepcionante.

Realmente odiei este filme. Cada segundo dele é um insulto ora a minha inteligência, ora ao meu país, ora por ambos. E o pior: vai ter uma continuação! (Eva Mendes aparece entre os créditos finais - só faltou cantar "Como uma Deusa!").

Ósculos e amplexos!